quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Codigo Florestal- entrevista com Dieter Warchow

19/4/2011

Código Florestal: 'falta harmonia, conhecimento sistêmico e sobram dispersão e desinformação'. Entrevista especial com Dieter Wartchow

“A natureza que nos assiste, não tem voz para pedir socorro e não fala para mostrar novos caminhos”, constata o engenheiro e pesquisador da UFRGS.

Confira a entrevista.

Para o pesquisador Dieter Wartchow, o novo código florestal deveria ser baseado em fatos, dados e informações resultantes de estudos científicos. “Na abordagem natural usada nas discussões em torno do Novo Código Florestal, falta harmonia, conhecimento sistêmico e sobram dispersão e desinformação. As discussões direcionam-se para os sintomas do problema e são pautadas por ações ou posições fragmentadas, as quais, na maioria dos casos, representam um ponto de vista corporativista, de seu interesse”, apontou ele na entrevista que concedeu à IHU On-Line por e-mail.

Dieter Wartchow é engenheiro graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com especialização em Hidrologia Aplicada pelo Instituto de Pesquisa Hidráulica. Na UFRGS fez o mestrado em Hidrologia Sanitária. É doutor em Engenharia Sanitária e Ambiental pela Universidade Stuttgart (Alemanha). Atualmente, é professor na UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que outra abordagem é possível para o Código Florestal?

Dieter Wartchow –
Uma abordagem baseada em fatos, dados e informações resultantes do estudo e conhecimento científico. Esta abordagem científica estimularia, a partir da seriedade dos propósitos do Novo Código Florestal, maior participação da sociedade e permitiria um direcionamento do debate para as causas do problema. Na abordagem natural usada nas discussões em torno do Novo Código Florestal, falta harmonia, conhecimento sistêmico e sobram dispersão e desinformação. As discussões direcionam-se para os sintomas do problema e são pautadas por ações ou posições fragmentadas, as quais, na maioria dos casos representam um ponto de vista corporativista, de seu interesse. Criou-se uma grande discussão onde o que parece ser certo para alguns, para outros parece errado. Defende-se e busca-se salvaguardar a destruição já feita e não o que deve ser feito para garantir a sustentabilidade da vida. Neste tabuleiro de xadrez, cada um está a defender o seu quadrado, quando todos são importantes.

IHU On-Line – Em que aspectos o novo código florestal compreende a economia e a ecologia de forma integrada e equilibrada?

Dieter Wartchow –
No Novo Código Florestal falta sinergia entre economia e ecologia. Estudar e cuidar da “casa” pode significar um processo de desenvolvimento econômico mais duradouro e sustentável. Neste, nota-se certo cartesianismo nos percentuais e números propostos, visto que, a natureza tem características singulares de acordo com o bioma e região.

IHU On-Line – Qual é a melhor alternativa para preservar o princípio do ambiente sustentável com desenvolvimento?

Dieter Wartchow –
Vou parafrasear o educador Paulo Freire, no qual “Não há saber maior ou menor, mas sim, saberes diferentes”. Talvez devêssemos discutir e buscar com criatividade novas tecnologias, e não temer uma mudança de comportamento. Plantar de forma diferente, reconhecer a vulnerabilidade da natureza e da biodiversidade e dos riscos de sua irreversibilidade. Também devemos dar à natureza o que é da natureza, por exemplo, adequando nossas atitudes ao tempo que a natureza precisa para renovar o ciclo da água. Permitir o acesso democrático à informação sobre as causas, conseqüências de um pobre manejo florestal. Sermos educandos e educadores. Não sermos indiferentes e participar na construção de um mundo melhor para todos.

IHU On-Line – Você é favorável ao aprimoramento do texto antes da votação? Quais alterações devem ser realizadas?

Dieter Wartchow –
Sim, mas até onde? Por que não se trabalha sobre o antigo, que parece ser melhor do que o novo? A proteção das fontes, das zonas úmidas ao longo dos cursos d’água e das áreas de recarga deve integrar a proposta do Novo Código Florestal. Além disso, segundo a Agência Nacional de Água – ANA, apoiada por estudos internacionais e realizados no Brasil, deve-se compreender o papel das matas e das áreas ciliares na proteção da biodiversidade e da qualidade e quantidade dos nossos mananciais de água e manter faixa de mata ciliar com largura mínima de 30 metros. Não menos do que isto. A assistência técnica e a extensão rural são de vital importância para o assessoramento das atividades rurais nos assentamentos e pequenas propriedades rurais. Desta dependem a manutenção dos habitats para a fauna, a biodiversidade, a prevenção contra erosão e a retenção de água. Quanto às APPs nas encostas íngremes, elas também deveriam ser mantidas e consideradas como serviço ambiental passível de remuneração compensatória.

IHU On-Line – O presidente da Câmara garantiu que o projeto do código somente será encaminhado para votação quando houver acordo sobre a proposta. É possível vislumbrar um acordo entre agricultores e os movimentos sociais contrários as mudanças?

Dieter Wartchow –
Um acordo entre os interlocutores do agronegócio, da agricultura familiar, agricultores, pecuaristas e os movimentos sociais contrários às mudanças propostas no Novo Código Florestal não vai cessar as críticas das partes envolvidas. Um acordo para quais objetivos e metas? Deveríamos observar e dialogar mais com a natureza. A natureza que nos assiste não tem voz para pedir socorro e não fala para mostrar novos caminhos.

IHU On-Line – O presidente da CeCafé, Guilherme Braga, afirma que o Novo Código Florestal pode condenar pequenos sítios e a agricultura familiar. Para a Via Campesina, relacionar agricultura familiar a mudanças no Código Florestal é falácia. Já um estudo feito pela Embrapa mostra que os produtores familiares serão os principais beneficiados. Em um contexto de desinformação, como lidar com constatações tão divergentes?

Dieter Wartchow –
Através da pesquisa do conhecimento científico e do desenvolvimento de atitudes solidárias e sérias para preservar de fato a Floresta Amazônica Brasileira, a Mata Atlântica, os biomas do cerrado, pantanal e pampa. Como todos os atores participantes do debate dizem querer proteger o meio ambiente e as florestas, deveria-se cobrar destes uma declaração de moratória, para evitar a agressão às APPs, às matas e florestas. A discussão sobre o Novo Código Florestal está acontecendo devido ao desrespeito da legislação brasileira e da Constituição Federal, principalmente, do Art. 225, onde fica claro o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e o dever do Poder Público e da coletividade de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Melhorar e ampliar a fiscalização contra os crimes ambientais.

IHU On-Line – Considerar as Áreas de Preservação Permanente (APPs) como Reserva Legal evitaria prejuízos para algumas propriedades? Qual seria a melhor proposta para a consolidação de ocupações em APPs?

Dieter Wartchow –
Não sou favorável à consolidação de ocupações em APPs, considerando que a maioria destas áreas oferecem risco às pessoas. Um sistema de informações geográficas, hidrológicas, geológicas, e outras informações relevantes poderia ser um bom instrumento para ao menos estas ocupações serem de conhecimento do poder público. Estes dados e os indicadores deveriam falar a linguagem do povo, para serem bem entendidas e interpretadas. Em sendo inevitável ou em se percebendo que a ocupação não oferece risco às pessoas e/ou relaciona-se com um sistema local de produção (ex.: plantio de uva), poder-se-ia analisar o potencial em transformar quem nelas trabalha em “cuidadores” do ambiente, educando-os e buscando desenvolver e capacitá-los para novas atividades locais de produção.

IHU On-Line – O Novo Código Florestal dá conta de atender a uma produção agrícola com qualidade econômica, ecológica e ambiental dentro dos preceitos atuais da ciência?

Dieter Wartchow –
Sim e não, se forem considerando os milhões de hectares de áreas mal aproveitadas ou ociosas; o uso da terra para produzir com elevada produtividade e também com baixa produtividade, portanto, com potencial para a ampliação da produção agrícola. A qualidade econômica pouco tem a ver com o Novo Código Florestal, pois é o mercado que estabelece os preços das commodities e as condições climáticas que impacta a produtividade para cima ou para baixo. Ecológica e ambientalmente, o Novo Código Florestal pode contribuir para melhorar a qualidade de vida promovendo impactos benéficos sobre a atmosfera (ar), litosfera (solo) e hidrosfera (água), que podem ser considerados reservatórios comunicantes de vida.

IHU On-Line – A proposta do novo código florestal dá conta de um cenário de mudanças climáticas, crise energética e crise alimentar?

Dieter Wartchow –
Quando especialistas discutem sobre o aquecimento global e sua relação com o crescimento dos níveis de carbono equivalente (CO2 equiv.), também estamos falando sobre as mudanças climáticas e seus efeitos sobre a produção de alimentos e sobre a vida em nosso planeta. Este tema, portanto associa ação local e efeito global. Florestas serão muito úteis para absorver gás carbônico e produzir oxigênio. A proposta do Novo Código Florestal poderá contribuir na diminuição dos riscos de geração de energia das hidroelétricas, pois é cientificamente comprovado que florestas e matas ciliares contribuem para a diminuição da erosão e melhora das vazões dos rios. Os sedimentos depositados no fundo das barragens ocupam o espaço que deveria ser destinado para armazenamento de água, além de poderem ser precursores da proliferação de algas tóxicas. A previsão de se poder usar parte da Reserva Legal para o plantio de árvores exóticas potencializa a queima da madeira para diversas atividades econômicas. O modelo de exportar água virtual e de usar madeira da floresta amazônica e do cerrado brasileiro como fonte de energia para a indústria do aço precisa ser reavaliado. A crise alimentar relaciona a falta de acesso aos alimentos pela população pobre, e não especificamente uma crise de produção de alimentos.

IHU On-Line – O novo código está sendo avaliado pelo que induz em termos de dinâmica social e cultural no país?

Dieter Wartchow –
Não acredito que a dinâmica social e cultural do país tenha importância preponderante na discussão em torno do Novo Código Florestal. Geralmente, é a ordem econômica que domina as ações políticas e determina quais concessões podem ser feitas ao povo e ao meio ambiente. Transformar um problema em uma oportunidade requer informações cientificamente analisadas em vez de informações desencontradas. Devemos procurar não acomodar situações e com conhecimento, habilidade e atitude, devemos também buscar equacionar este tema, que lida com nossa vida. Salvemos um grande potencial de futuro do Brasil, nossas florestas e nossa água.

Código Florestal

29/11/2011
Em vez de código florestal, Brasil terá código agrícola
No polarizado debate entre ambientalistas e ruralistas sobre as mudanças propostas no Código Florestal, o empresário Roberto Klabin é uma das raras personalidades com trânsito e atuação nas duas esferas, seja como presidente da Fundação SOS Mata Atlântica, ONG ambientalista que atua na preservação das florestas, seja como pecuarista e empresário do setor de papel e celulose (é um dos principais acionistas da Klabin).

A entrevista é de André Palhano e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 29-11-2011.

Eis a entrevista.

De onde surgiu a ideia de alterar o Código Florestal?

A movimentação toda aconteceu a partir de 2008, quando o presidente Lula começou a utilizar a lei de crimes ambientais para enquadrar produtores que não estavam adequados. Isso gerou uma tensão grande no setor e criou-se uma comissão, chefiada pelo Aldo [Rebelo], para alterar a legislação.

O problema é que nunca houve ali a intenção de melhorar o código anterior ou tornar o Brasil mais moderno na questão ambiental, mas sim favorecer apenas um setor da sociedade, que é o do agronegócio, em detrimento de outros setores e até da população. O que temos na proposta é um código agrícola, não um código florestal.

O que explica tamanha polarização no debate?

O fato de terem chamado apenas um setor para discutir mudanças que dizem respeito a todos. Isso é que gerou toda essa mobilização da sociedade. Obviamente, não podemos criticar o processo, que foi democrático.

O problema é que, além da assimetria dos poderes envolvidos, o resultado é um retrocesso que afetará negativamente a todos no futuro, inclusive o produtor rural.

De que maneira?

Um exemplo: vários países estão começando a entender a necessidade de mitigar e adaptar os efeitos das mudanças climáticas, enquanto o Brasil está indo na contramão da história, uma vez que as mudanças no código claramente pioram esses efeitos. E não sou eu quem está afirmando isso, é a ciência.

Em resumo, para atender interesses de curto prazo de um grupo específico da sociedade, estamos retrocedendo em temas que afetarão negativamente a todos.

Quem defende a mudança no código alega que a legislação atual impede o aumento da produção no campo, prejudicando a economia. Como o sr. vê essa questão?

É um falso dilema. Um estudo da Esalq-USP, por exemplo, mostrou que há mais de 100 milhões de hectares de vegetação que se encontram fora de áreas de proteção e que poderiam ser desmatados, dos quais 26 milhões propícios à agricultura. Hoje, temos toda a agricultura do país localizada em 60 milhões de hectares. A alegação de que é impossível se adequar também não é correta.

Se a lei caminhar em sentido contrário, quem se adaptou não acaba sendo prejudicado?

De forma nenhuma. Tanto por essa tendência dos consumidores e da regulação como pela proteção que eles acabam tendo em um cenário de mudanças climáticas e aproveitamento do valor econômico da biodiversidade. Isso sem falar na proteção natural contra pragas, incêndios e outros temas. Ou seja, quem não se adaptar agora resolverá um problema econômico de curto prazo, mas terá de enfrentar isso lá na frente, provavelmente com impacto negativo maior.

O que o sr. está dizendo é que o setor agrícola sofrerá um efeito bumerangue no futuro?

O produtor brasileiro terá de se adequar para atender às exigências de mercado que vêm por aí, isso é inevitável. Fica cada vez mais claro que teremos de trabalhar em cadeias de certificação, e quem mais vai se prejudicar nesse processo, mantida a tendência atual, é o pequeno produtor, que tem mais dificuldades de adaptação quando comparado aos grandes. Isso não está sendo considerado.

Passada a votação, o embate entre ambientalistas e ruralistas deixará cicatrizes?

Sem dúvida ficarão mágoas, sem dúvida o Brasil perde com essa polarização, mas isso não é muito diferente de outros países. O entendimento da sociedade sobre as questões de sustentabilidade ainda é fraco, tratado de maneira secundária.

De qualquer forma, tudo isso deixará uma grande lição para os ambientalistas, que é trabalhar melhor e com maior representatividade em Brasília. Tenho certeza de que muitos deputados que votaram a favor das mudanças no código nem imaginavam o que estavam aprovando, só seguiram suas lideranças. Temos de reforçar esse trabalho de conscientização.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

RECOLONIZAÇÃO descarada dos paises islâmicos

1/9/2011
A Líbia, a Otan e o Grande Médio Oriente
O que ocorrerá na Líbia após a guerra? Haverá um longo período de caos, seguido da formação de um governo de coalizão tribal, instável e autoritário, sob o patrocínio e a tutela militar da Otan. Assim, estará criado o primeiro “protetorado colonial” da organização militar, na África.

A opinião é de José Luís Fiori, cientista político, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo publicado por Carta Maior, 31-08-2011.

Eis o artigo.

Se aqui e no exterior todos perceberem que estamos prontos para a guerra a qualquer momento,
com todas as unidades das nossas forças na linha de frente prontas para entrar em combate
e ferir o inimigo no ventre,
pisoteando-o quando estiver no chão,
para ferver seus prisioneiros em azeite e torturar suas mulheres e filhos,
então ninguém se atreverá no nosso caminho”.

John Arbuthnot Fisher,
Primeiro Lord do Almirantado da Marinha Real Britânica,
(cit. in Norman Angell, A Grande Ilusão, Editora UNB, 2002, p: 275)


É preciso ser muito ingênuo ou mal informado para seguir pensando que a “Guerra da Líbia” foi feita em nome dos “direitos humanos” e da “democracia”. E, ainda por cima, acreditar que o governo de Muamar Kadafi foi derrotado pelos “rebeldes” que aparecem nos jornais, em poses publicitárias. Tudo isso, enquanto a aviação inglesa comanda o ataque final das forças da Otan à cidade de Sirta, depois de ter conquistado a cidade de Trípoli. Até o momento, a "primavera árabe" não produziu nenhuma mudança de regime na região, mesmo na Tunísia e no Egito, e não há nenhuma garantia de que os novos governos sejam mais democráticos, liberais ou humanitários que seus antecessores.

Até porque quase todos os seus líderes ocuparam posições de destaque nos governos que ajudaram a derrubar, com o apoio de uma multidão heterogênea e desorganizada. No caso da Líbia, não se pode nem mesmo falar de algo parecido a uma "mobilização massiva e democrática" da oposição, porque se trata de fato de uma guerra selvagem e sem quartel, entre regiões e tribos inimigas, que foram mobilizadas e "pacificadas" transitoriamente, pelas forças militares da Otan.

Segundo Lord Ismay, que foi o primeiro secretário-geral da Otan, o objetivo da aliança militar criada pelo Tratado do Atlântico Norte, assinado em 1949, era "manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães para baixo". E este objetivo foi cumprido plenamente, durante todo o período da Guerra Fria. Mas depois de 1991 a Otan passou por um período de "crise de identidade" e redefinição do seu papel dentro sistema internacional.

Num primeiro momento, a organização militar se voltou para o Leste e para a ocupação/incorporação de alguns países da Europa Central que haviam pertencido ao Pacto de Varsóvia. Além disso, decidiu participar diretamente das Guerras do Kosovo e da Sérvia. E, ao mesmo tempo, lançou, em 1994, um projeto de intercâmbio militar e de segurança com os países árabes do norte da África, o chamado “Diálogo Mediterrâneo”.

Dez anos depois, na sua reunião de cúpula de 2004, em Istambul, os dirigentes da Otan decidiram expandir o seu projeto de segurança e criaram a "Iniciativa de Cooperação de Istambul" (ICI), voltada para os países do Oriente Médio. Além disso, neste mesmo período, a Otan, que não havia apoiado as guerras do Afeganistão e do Iraque, decidiu aderir e colocar-se ao lado das tropas anglo-americanas, instalando suas forças também na Ásia Central.

Foram os ingleses que cunharam o termo "Oriente Médio", para referir-se aos territórios situados no meio do seu caminho, entre a Inglaterra e a Índia, e que pertenciam ou estavam sob a tutela do Império Otomano. Incluindo os territórios que foram retalhados e divididos depois do fim da Primeira Guerra Mundial, sendo transformados em “protetorados” da Inglaterra e da França - que já eram, naquele momento, as duas maiores potências imperiais da Europa e que submeteram e colonizaram a maior parte da África Sub-Sahariana e todos os países árabes do norte do continente, hoje incluídos no “Diálogo Mediterrâneo” da Otan.

Mas foi o ex-presidente norte-americano George W. Bush quem cunhou o termo “Grande Médio Oriente”, apresentado pela primeira vez na reunião do G-8, realizada em Sea Islands, nos EUA, em junho de 2004. A idéia era definir e unificar um novo espaço de intervenção geopolítica, que iria do Marrocos até o Paquistão, e deveria ser objeto da preocupação prioritária das Grandes Potências na sua guerra contra o “terrorismo islâmico” e a favor da “democracia” e dos “direitos humanos”. Desta perspectiva, se pode compreender melhor o significado geo-estratégico da “primavera árabe” e da Guerra da Líbia.

Assim mesmo, o que se deve esperar que ocorra depois da guerra? Na Líbia, haverá um longo período de caos, seguido da formação de um governo de coalizão tribal, instável e autoritário, sob o patrocínio e a tutela militar da Otan. Ao mesmo tempo, estará dado um passo decisivo na construção de uma força de intervenção “ocidental”, capaz de projetar seu poder militar sobre todo o território islâmico do Grande Médio Oriente. E, de passagem, estará criado o primeiro “protetorado colonial” da Otan, na África. Triste sina da África!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CHINA atual.

Na verdade, a China pode ser considerada a Potencia mais avançada da atualidade.. Exemplo de seriedade com as coisas públicas. Lá os corruptos e corruptores são punidos conforme as leis do país, ao contrário do que acontece no mundo ocidental onde os Palocis, Nascimentos, Malufes, etc.etc.etc. continuam lampeiros e felizes da vida. Ainda temos idiotas trotkistas e reacionários reclamando da falta de Direitos Humanos por lá. É de provocar risos.

Ladislau Dowbor vê a China
By
admin
– 01/08/2011Posted in: Capa
Buzz

Imagens e breves impressões sobre país cada vez mais poderoso e influente — e que precisamos compreender, mais que julgar
Texto e fotos de Ladislau Dowbor*
A tradição ocidental é de qualquer pessoa que passa um par de semanas na China escrever um livro. Não pretendo ir aqui além de algumas imagens. A realidade é que a China apresenta uma dinâmica absolutamente impressionante de crescimento econômico, transformações em ritmo que temos dificuldades em conceber. Crescer 10% ao ano significa a economia dobrar de tamanho a cada 7 anos. Isto quando um em cada 6 habitantes do planeta é chinês. Não se trata de assunto de chinês, trata-se de todos nós.
No par de semanas em que estive na China, visitei Beijing, Chengdu (1600 km para o interior), e Shanghai, realizando conferências em cerca de 10 instituições universitárias, organizações da sociedade civil, e até na escola de formação de quadros do Partido Comunista. Todos interessados em sistemas de gestão descentralizada e inovações institucionais da América Latina. E eu interessado, como é natural, em como funciona a própria China.
Todos sabemos que a dinâmica é poderosa, que se trata da segunda economia do mundo, e no entanto não sabemos como e porque funciona. Segundo as nossas opções ideológicas, achamos que é um exemplo, ou que é um desastre ambiental, ou ainda um desastre social. Outros ainda declaram que é uma ditadura e fazem de conta que é tão simples assim. As simplificações, como sempre, sobrevivem porque simplesmente sabemos muito pouco. Na realidade vi muita coisa interessante em todas as dimensões. E cabe não esquecer que a China tirou 430 milhões de pessoas da miséria entre 1981 e 2000 (ONU, The Inequality Predicament, p. 78), cifra que ultrapassa 500 milhões segundo Lester Brown (Brown, 2011).
Arrisco apenas uma ideia geral, que discuti em vários meios e consultei em vários documentos, e que parece razoavelmente segura: o sistema é politicamente centralizado, no sentido de traçar as orientações gerais. No entanto, a execução, e de forma geral a gestão da economia, do meio ambiente e das políticas sociais estão radicalmente descentralizadas, permitindo uma enorme flexibilidade e pragmatismo nas soluções. E não se trata apenas de descentralizar os encargos, pois os próprios recursos são descentralizados, através de caótico, mas funcional sistema de orçamento central articulado com recursos para-orçamentários locais. (Catherine Wong).
No mais, através de fotos tiradas nesta viagem em junho 2011, trago algumas impressões do cotidiano: antes de tudo, com a imensa pressão populacional e pouca terra fértil, as grandes cidades optaram claramente pela verticalização. Nada dos subúrbios típicos das grandes cidades norte-americanas. A China urbana cresce para cima.












Shanghai, novo bairro residencial (junho 2011)
As universidades não escapam a esta lógica, como se vê na foto seguinte. As duas imensas torres geminadas são uma faculdade de administração em Beijing.

Beijing, Faculdade de administração, (junho 2011)
Abaixo, típica avenida de Shanghai, bairro residencial novo. O pouco trânsito deve-se a que os meus passeios em horário livre eram muito cedo. Mas a estrutura intermodal de trânsito é típica: duas ou três faixas para automóveis, separação com plantas definindo claramente o espaço onde andam bicicletas e pequenas scooters, todos elétricos, e uma calçada arborizada bastante ampla. O planejamento permite que o espaço não seja (inteiramente) comido por interesses imobiliários, equilibrando o uso do espaço viário, no que hoje se chama de “ruas completas”, e não apenas para carros.

A mobilidade, naturalmente, e um problema central, com cidades ultrapassando 20 milhões de habitantes. Na foto abaixo, de Shanghai, vemos a integração do sistema. À direita na foto, a boca de metrô, são 420 quilómetros na cidade, fora as conexões ferroviárias para o interior. A densidade de metrô muda evidentemente todos os parâmetros, pois a grande massa de deslocamentos no triângulo casa-trabalho-escola no mesmo horário todo dia é enxugada, liberando a superfície. É bom lembrar que em São Paulo temos 65 quilômetros, e uma média ridícula de 650 metros por ano nos últimos 16 anos de governo xuxu. Vemos também a faixa exclusiva para bicicletas e motinhos (quase sempre elétricas), à esquerda na foto faixas para carros, à direita amplo espaço de calçada, e sempre que possível todas as separações com plantas e árvores. A sinalização é clara, conforme se vê na foto seguinte.















Uma opção importante que apareceu de forma massiva nas três cidades que visitei, Beijing, Chengdu e Shanghai, é a presença generalizada da bicicleta e da scooter (bem parecido com as nossas “Biz”) elétricas: silenciosas e sem poluição, com uma autonomia entre 50 e 60 quilômetros. No caso das bicicletas, as pessoas ajudam com pedal em caso de subida forte ou rampa. Não exigem complicações de registro de veículos nem capacete.


Os preços são ridículos (entre 800 e 1500 yuan, cerca de 250 a 350 reais). O preço não se deve apenas a baixos salários: é um motor elétrico e uma bateria, o resto é lataria e borracha. Não precisa de tanque de combustível, sistema de distribuição, carburador, pistões, embreagem etc. A não entrada desta tecnologia simples no Brasil para mim é um mistério que só a teoria dos cartéis resolve. A manutenção é igualmente ridícula. A recarga se dá em geral à noite, quando há um superávit de energia. Adeus petróleo: mas se a energia é limpa no uso, na produção ainda é muito carvão. O Brasil teria muitas vantagens neste plano.
A China sofreu recentemente violentas inundações, resultado em parte de fenômenos naturais mais violentos gerados pelo aquecimento global, mas sobretudo pelo desmatamento irresponsável. Em decisão típica da China, de definir rumos a partir do governo central e deixando cada cidade do país aplicar as normas segundo as suas realidades, foram plantadas árvores aos bilhões (ver em particular dados em Lester Brown, World on the Edge). Por toda parte se vêm estas árvores reforçadas por estacas, indicando plantio recente. Encontrei este esforço por onde passei. As cidades estão se tornando verdes.


Shanghai, Centro de Formação de Quadros, (junho 2011)
Outra foto típica:


Ampla calçada com árvores (sempre sustentadas, demonstrando plantio recente), que segue o rio da cidade em Chengdu, que fica à direita da foto, bem diferente por exemplo da beira do Tietê em São Paulo. As próprias calçadas são quando possível em parte feitas com bloquetos furados, o que permite manter a permeabilidade do solo.

A limpeza das cidades é absolutamente impressionante, não se encontra sequer bitucas nas calçadas. Já tinha notado isto em visita anterior anos atrás, até em feira de rua no interior não havia um pedaço de lixo no chão. As lixeiras que sem complicações separam apenas o reciclável e não reciclável, se encontram em grande quantidade, e o que é mais importante, estão limpas e renovadas, o que significa um sistema permanente de manutenção. Claramente, não se trata aqui apenas de infraestrutura e de serviços, mas também de uma cultura da limpeza.


Nos bairros mais tradicionais, uma densa movimentação de mercadinhos, feiras, pequeno comércio de rua, ainda pouco destruído por shoppings. O chinês vive muito na rua nestes bairros. Nos mercadinhos, inúmeros tipos de macarrão, muitíssima verdura, e colado pequenos negócios que vendem scooters elétricas, literalmente a preço de feira.





A riqueza de verduras é impressionante. Extremamente saborosas, e aparecem em grande quantidade em todas as refeições. Aliás, pouquíssima gente gorda, que dirá obesa. A agricultura urbana é muito presente, não se desperdiça um metro que possa ser plantado. Na foto abaixo, parece que estamos no campo, com edifícios presentes por engano, mas a foto foi tirada de uma avenida movimentada.

Na mesma rua, em Shanghai, um típico quiosque de jornais: inúmeros diários, nenhuma publicação do tipo que curiosamente chamamos de “masculina” no Brasil.


No interior da região de Chengdu, uma paisagem bastante típica de cinturões verdes de metrópoles: cultivos extremamente densos, próximos da jardinagem, asseguram uma produtividade muito elevada, típica de pequena propriedade (na realidade direito de uso, na China). A variedade grande de plantios reduz problemas de doenças e melhora a conservação do solo. As fotos mostram policultura de legumes e plantação de uva. Na foto com carro, vemos que aproveitam a terra até a um palmo da estrada. Aqui a idéia de que agricultura moderna e produtiva só seria em grande escala, tão difundida no Brasil pelos ruralistas, simplesmente não faz sentido. Não se esbanja terra. Aliás, os que defendem a liberação de desmatamento em “pequenas propriedades” no Brasil, estão se referindo a quatro módulos, 400 hectares nas regiões mais ameaçadas, dois por dois quilômetros! Só no Brasil para chamar isto de pequena propriedade….Mas voltemos à China.




A foto abaixo apresenta o centro de Shanghai, mistura de prédios ultramodernos com calçadas tranquilas. A linha horizontal no meio da foto é uma calçada elevada que dá a volta em toda a praça, permitindo caminhadas sem stress, e uma bela vista. É muito frequentada.







A beira do rio de Shanghai é aberta, permitindo passeio, apesar do dia de chuva em que visitamos. Na foto seguinte, vemos o lado tradicional da cidade, com arquitetura ainda dos ingleses.


E em seguida o centro moderno do outro lado do rio, com a sua imensa torre de TV. Este horizonte é o cartão de visita da cidade.


Espaços de lazer urbano existem, de forma desigual. Amplas áreas claramente de arborização recente (sempre os suportes para árvores transplantadas). Em torno de monumentos tradicionais, muito água, peixes. Na foto abaixo vemos um parque, o córrego que corre para o rio (no centro da foto, a área verde-claro) não aparece, pois é densamente coberto pelas plantas que filtram a água e a deixam limpa antes que caia no rio pouco adiante. Nas partes abertas, o cuidado com as flores.




Chengdu, parque no centro, (junho 2011)
A foto a seguir veio totalmente por engano, momento de distração, mas estou incluindo por razões estéticas, e sobretudo porque me encheram de avisos dizendo que na China é tudo plano, por assim dizer. Maldade desta gente.

Moral da história? Com este pequeno relato fotográfico, à margem de uma correria de palestras, pretendi apenas dar imagens, e sobretudo evitar as simplificações ideológicas com as quais frequentemente nos contentamos sobre a China. Aliás, esta em geral não dá muita bola para os nossos julgamentos, pois é imensa e busca os seus equilíbrios internos. No conjunto das discussões, vi muito pragmatismo. E muita preocupação com o ritmo de penetração de um modo de vida ocidental pouco sustentável para o país. Sobre este ponto, aliás, há uma excelente leitura recente, de Chandran Nair, Consumptionomics: Asia’s role in reshaping capitalism and saving the planet. O importante hoje, mais do que julgar a China, é entendê-la.
Impressão geral? Convivem em complexa articulação o ultramoderno em vertiginosa expansão, os bairros tradicionais de classe média intocados mas com intervenção de serviços urbanos, os antigos bairros paupérrimos que estão sendo simplesmente desmantelados e substituídos por prédios, e o imenso interior cada vez mais articulado pelas cidades regionais. Vários séculos se reordenam na dinâmica da modernização. E todo mundo estuda.
Mais sobre a China e seus papéis:
Lester Brown – The World on the Edge – www.earth-policy.org , 2011
Chandran Nair – Consumptionomics – John Wiley & Sons, Singapore 2011
UN – The inequality predicament – New York 2005
Christine Wong and Vivienne Shue – Paying for Progress in China, Routledge, 200

Ladislau Dowbor formou-se em Economia Política pela Universidade de Lausanne (Suíça) e é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia (Polônia). Atualmente, é professor titular de pós-graduação na PUC-São Paulo. Presta consultoria a diversas agências das Nações Unidas, bem como ao Senac. Atua como conselheiro na Fundação Abrinq, Instituto Pólis e outras instituições. Mantém e atualiza com frequência um site instalado em www.dowbor.org

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Escândalos não punidos nos diversos governos

A lista é de escândalos em referência que repercutiram em todo o
Brasil.
São 33 anos de escândalos.

1- Governo Geisel
( Ernesto Geisel) ( 1974-1979)
10 casos em 6 anos de governo.
(Período de excessão para conter as investidas
comunistas contra o Brasil)
Abertura Política
Caso Wladimir Herzog
Caso Manuel Fiel Filho
Caso Lutfala
Caso Atalla
Ângelo Calmon de Sá
(ministro acusado de passar um gigantesco cheque sem fundos)
Lei Falcão (1976)
Pacote de Abril (1977)
Cassações dos Parlamentares no Governo Geisel
Grandes Mordomias dos Ministros no Governo Geisel
2- Governo Figueiredo
(João Baptista Figueireo) ( 1979-1985)
11 casos em 6 anos de governo
(Período de abertura política, iniciada no Governo Geisel,
e de liberação política e econômica)
Anistia de 1979
Caso Capemi
Caso do Grupo Delfim
Escândalo da Mandioca
Escândalo da Brasilinvest
Escândalo das Polonetas
Caso Morel
Crime da Mala
Caso Coroa-Brastel
Escândalo das Jóias

3 - Governo Sarney
( José Sarney) ( 1985-1990)
6 casos em 6 anos de governo
CPI da Corrupção
Escândalo do Ministério das Comunicações
(grande número de concessões de rádios e TVs
para políticos aliados ou não ao Sarney.
A concessão é em troca de cargos, votos ou apoio ao presidente)
Caso Chiarelli
(Dossiê do Antônio Carlos Magalhães contra o senador Carlos Chiarelli
ou "Dossiê Chiarelli")
Caso Ibraim Abi-Ackel
Escândalo da Administração de Orestes Quécia
Escândalo do Contrabando das Pedras Preciosas


4- Governo Collor
( Fernando Collor de Mello) ( 1990-1992)

19 casos em 2 anos de governo
Escândalo da Aprovação da Lei da Privatização das Estatais
Programa Nacional de Desestatização
Escândalo do INSS (ou Escândalo da Previdência Social)
Escândalo do BCCI (ou caso Sérgio Corrêa da Costa)
Escândalo da Ceme (Central de Medicamentos)
Escândalo da LBA
Esquema PP
Esquema PC (Caso Collor)
Escândalo da Eletronorte
Escândalo do FGTS
Escândalo da Ação Social
Escândalo do BC
Escândalo da Merenda
Escândalo das Estatais
Escândao das Cmunicações
Escândalo da Vasp
Escândalo da Aeronáutica
Escândalo do Fundo de Participação
Escândalo do BB


5- Governo Itamar Franco
(Itamar Augusto Cautiero Franco) ( 1992- 1995)
32 casos em 3 anos de governo
Centro Federal de Inteligência
(Criação da CFI para combater corrupção
em todas as esferas do governo)
Caso Edmundo Pinto
Escândalo do DNOCS
(Departamento Nacional de Obras contra a Seca)
(ou caso Inocêncio Oliveira)
Escândalo da IBF ( Indústria Brasileira de Formulários)
Escândalo do INAMPS
( Instituto Nacional de Assistência Previdência Social)
Irregularidades no Programa Nacional de Desestatização
Caso Nilo Coelho
Caso Eliseu Resende
Caso Queiroz Galvão (em Pernambuco)
Escândalo da Telemig (Minas Gerais)
Jogo do Bicho (ou Caso Castor de Andrade) (no Rio de Janeiro)
Caso Ney Maranhão
Escândalo do Paubrasil (Paubrasil Engenharia e Montagens)
Escândalo da Administração de Roberto Requião
Escândalo da Cruz Vermelha Brasileira
Caso José Carlos da Rocha Lima
Escândalo da Colac (no Rio Grande do Sul)
Escândalo da Fundação Padre Francisco de Assis Castro Monteiro
(em Ibicuitinga, Ceará)
Escândalo da Administração de Antônio Carlos Magalhães (Bahia)
Escândalo da Administração de Jaime Campos (Mato Grosso)
Escândalo da Administração de Roberto Requião (Paraná)
Escândalo da Administração de Ottomar Pinto (em Roraima)
Escândalo da Sudene de Pernambuco
Escândalo da Prefeitura de Natal (no Rio Grande do Norte)
CPI do Detran (em Santa Catarina)
Caso Restaurante Gulliver (tentativa do governador Ronaldo Cunha Lima
matar o governador
antecessor Tarcísio Burity, por causa das denúncias de Irregularidades
na Sudene de Paraíba)
CPI do Pó (em Paraíba)
Escândalo da Estacom (em Tocantins)
Escândalo do Orçamento da União
(ou Escândalo dos Anões do Orçamento ou CPI do Orçamento)
Compra e Venda dos Mandatos dos Deputados do PSD
Caso Ricupero (também conhecido como "Escândalo das Parabólicas").


6- Governo FHC
( Fernando Henrique Cardoso) (1995- 2003)
44 casos em 8 anos de governo
Escândalo do Sivam
(Primeira grave crise do governo FHC)
Escândalo da Pasta Rosa
Escândalo da CONAN
Escândalo da Administração de Paulo Maluf
Escândalo do BNDES
(verbas para socorrerem ex-estatais privatizadas)
Escândalo da Telebrás
Caso PC Farias
Escândalo da Compra de Votos Para Emenda da Reeleição
Escândalo da Venda da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD)
Escândalo da Previdência
Escândalo da Administração do PT
(primeira denúncia contra o Partido dos Trabalhadores
desde a fundação em 1980,
feito pelo militante do partido Paulo de Tarso Venceslau)
Escândalo dos Precatórios
Escândalo do Banestado
Escândalo da Encol
Escândalo da Mesbla
Escândalo do Banespa
Escândalo da Desvalorização do Real
Escândalo dos Fiscais de São Paulo (ou Máfia dos Fiscais)
Escândalo da Mappin
Dossiê Cayman
(ou Escândalo do Dossiê Cayman ou Escândalo do Dossiê Caribe)
Escândalo dos Grampos Contra FHC e Aliados
Escândalo do Judiciário
Escândalo dos Bancos
CPI do Narcotráfico
CPI do Crime Organizado
Escândalo de Corrupção dos Ministros no Governo FHC
Escândalo da Banda Podre
Escândalo dos Medicamentos
(grande número de denúncias de remédios falsificados
ou que não curaram pacientes)
Quea do Monopólio do Petróleo (criação da ANP)
Escândalo da Transbrasil
Escândalo da Pane DDD do Sistema Telefônico Privatizado (o "Caladão")
Escândalo dos Desvios de Verbas do TRT-SP
(Caso Nicolau dos Santos Neto , o "Lalau")
Escândalo da Administração da Roseana Sarney (Maranhão)
Corrupção na Prefeitura de São Paulo (ou Caso Celso Pitta)
Escândalo da Sudam
Escândalo da Sudene
Escândalo do Banpará
Escândalo da Quebra do Sigilo do Painel do Senado
Escândalos no Senado em 2001
Escândalo da Administração de Mão Santa (Piauí)
Caso Lunus (ou Caso Roseana Sarney)
Acidentes Ambientais da Petrobrás
Abuso de Medidas Provisórias (5.491)
Escândalo do Abafamento das CPIs no Governo do FHC


Governo Lula
(Luiz Inácio Lula da Silva) (desde 2003)
101 casos em 4 anos de governo.
Caso Pinheiro Landim
Caso Celso Daniel
Caso Toninho do PT
Escândalo dos Grampos Contra Políticos da Bahia
Escândalo do Proprinoduto
(também conhecido como Caso Rodrigo Silveirinha )
CPI do Banestado
Escândalo da Suposta Ligação do PT com o MST
Escândalo da Suposta Ligação do PT com a FARC
Privatização das Estatais no Primeiro Ano do Governo Lula
Escândalo do Gasto Públicos dos Ministros
Irregularidades do Fome Zero
Escândalo do DNIT
(envolvendo os ministros Anderson Adauto e Sérgio Pimentel)
Escândalo do Ministério do Trabalho
Licitação Para a Compra de Gêneros Básicos
Caso Agnelo Queiroz
(O ministro recebeu diárias do COB para os Jogos Panamericanos)
Escândalo do Ministério dos Esportes
(Uso da estrutura do ministério para organizar a festa de aniversário
do ministro Agnelo Queizoz)
Operação Anaconda
Escândalo dos Gafanhotos (ou Máfia dos Gafanhotos)
Caso José Eduardo Dutra
Escândalo dos Frangos (em Roraima)
Várias Aberturas de Licitações da Presidência da República
Para a Compra de Artigos de Luxo
Escândalo da Norospar
(Associação Beneficente de Saúde do Noroeste do Paraná)
Expulsão dos Políticos do PT
Escândalo dos Bingos
(Primeira grave crise política do governo Lula)
(ou Caso Waldomiro Diniz)
Lei de Responsabilidade Fiscal
(Recuos do governo federal da LRF)
scândalo da ONG Ágora
Escândalo dos Copos
(Licitação do Governo Federal para a compra de 750 copos de cristal
para vinho, champagne, licor
e whisky)
Caso Henrique Meirelles
Caso Luiz Augusto Candiota
(Diretor de Política Monetária do BC,
é acusado de movimentar as contas no exterior
e demitido por não explicar a movimentação)
Caso Cássio Caseb
Caso Kroll
Conselho Federal de Jornalismo
Escândalo dos Vampiros
Escândalo das Fotos de Herzog
Uso dos Ministros dos Assessores em Campanha Eleitoral de 2004
Escândalo do PTB
(Oferecimento do PT para ter apoio do PTB em troca de cargos,
material de campanha e R$ 150 mil reais a cada deputado)
Caso Antônio Celso Cipriani
Irregularidades na Bolsa-Escola
Caso Flamarion Portela
Irregularidades na Bolsa-Família
Escândalo de Cartões de Crédito Corporativos da Presidência
Irregularidaes do Programa Restaurante Popular
(Projeto de restaurantes populares beneficia prefeituras
administradas pelo PT)
Abuso de Medidas Provisórias no Governo Lula
entre 2003 e 2004 (mais de 300)
Escândalo dos Correios
(Segunda grave crise política do governo Lula.
Também conhecido como Caso Maurício Marinho)
Escândalo do IRB
Escândalo da Novadata
Escândalo da Usina de Itaipu
Escândalo das Furnas
Escândalo do Mensalão
(Terceira grave crise política do governo.
Também conhecido como Mensalão)
Escândalo do Leão & Leão
(República de Ribeirão Preto ou Máfia do Lixo ou Caso Leão & Leão)
Escândalo da Secom
Esquema de Corrupção no Diretório Nacional do PT
Escândalo do Brasil Telecom
(também conhecido como Escândalo do Portugal Telecom
ou Escândalo da Itália Telecom)
Escândalo da CPEM
Escândalo da SEBRAE (ou Caso Paulo Okamotto)
Caso Marka/FonteCindam
Escândalo dos Dólares na Cueca
Escândalo do Banco Santos
Escândalo Daniel Dantas - Grupo Opportunity
(ou Caso Daniel Dantas)
Escândalo da Interbrazil
Caso Toninho da Barcelona
Escândalo da Gamecorp-Telemar
(ou Caso Lulinha)
Caso dos Dólares de Cuba
Doação de Roupas da Lu Alckmin
(esposa do Geraldo Alckimin)
Doação de Terninhos da Marísia da Silva
(esposa do presidente Lula)
Escândalo da Nossa Caixa LI
Escândalo da Quebra do Sigilo Bancário do Caseiro Francenildo
(Quarta grave crise política do governo Lula.
Também conhecido como Caso Francenildo Santos Costa)
Escândalo das Cartilhas do PT
Escândalo do Banco BMG
(Empréstimos para aposentados)
Escândalo do Proer
Escândalo do Sivam

Escândalo dos Fundos de Pensão
Escândalo dos Grampos na Abin
Escândalo do Foro de São Paulo
Esquema do Plano Safra Legal (Máfia dos Cupins)
Escândalo do Mensalinho
Escândalo das Vendas de Madeira da Amazônia
(ou Escândalo Ministério do Meio Ambiente).
69 CPIs Abafadas pelo Geraldo Alckmin (em São Paulo)
Escândalo de Corrupção dos Ministros no Governo Lula
Crise da Varig
Escândalo das Sanguessugas
(Quinta grave crise política do governo Lula.
Inicialmente conhecida como Operação Sanguessuga
e Escândalo das Ambulâncias)
Escândalo dos Gastos de Combustíveis dos Deputados
CPI da Imigração Ilegal
CPI do Tráfico de Armas
Escândalo da Suposta Ligação do PT com o PCC
Escândalo da Suposta Ligação do PT com o MLST
Operação Confraria
Operação Dominó
Operação Saúva
Escândalo do Vazamento de Informações da Operação Mão-de-Obra
Escândalo dos Funcionários Federais Empregados que não Trabalhavam
Mensalinho nas Prefeituras do Estado de São Paulo
Escândalo dos Grampos no TSE
Escândalo do Dossiê
(Sexta grave crise política do governo Lula)
ONG Unitrabalho
Escândalo da Renascer em Cristo
CPI das ONGs
Operação Testamento
CPI do Apagão Aéreo
Operação Hurricane
!!!!!!!!!
- FORA OS NÃO CATALOGADOS -
Retirado de

http://pt.wikipedia.org:80/wiki/Lista_de_escândalos_de_corrupção_no_Brasil

terça-feira, 5 de julho de 2011

Entrervista de Evo Morales

América do Sul deve construir uma aliança estratégica”
Em entrevista ao jornal Página/12, o presidente da Bolívia, Evo Morales, fala sobre sua experiência como presidente, sobre os programas sociais que está implantando para beneficiar a população mais pobre e defende uma aliança estratégica entre os países da América do Sul. “Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade”.
Martín Granovsky - Página/12

O jogo da noite entre Argentina e Bolívia e o gasoduto para trazer gás ao norte argentino eram os grandes temas da visita de Evo Morales a Argentina até que surgiu o protesto da comunidade judaica pela viagem do ministro de Defesa iraniano a La Paz. São 11 horas da manhã e Evo acaba de se despedir dos dirigentes da DAIA (Delegação de Associações Israelitas Argentinas). Saíram sorridentes. Talvez contagiados pela tranquilidade que emana hoje desse presidente aymara e ex-dirigente sindical que, no último dia 22 de janeiro, completou cinco anos no Palácio Queimado.

- Nunca sonhei em seu presidente – diz Evo. Nunca pensei que iria ser presidente.

- Nunca?

- Até 2002, jamais. Jamais. Eu, de tão baixo. Quando meus companheiros me propuseram ser candidato à presidência, em 1997, pensei que estavam gozando com minha cara.

- Mas o elegeram deputado.

- Sim. Fui candidato a presidente em 2002, e a candidatura surpreendeu a mim mesmo. Eu candidato? Foi uma satisfação. E depois, em 2005, ganhamos, mas temos muito que seguir aprendendo no novo sentido da política boliviana: antes o povo era escravo do governo. Agora o governo é escravo do povo. Está a serviço do povo.

- Os bolivianos votaram várias vezes em eleições presidenciais e para a reforma da Constituição. Como faz um presidente para avaliar o sentimento popular a cada dia?

- As reuniões com os movimentos sociais permitem saber como servir ao povo. Os resultados de gestão não só satisfazem como causam orgulho quando o povo se sente atendido em suas demandas. Nem sempre é suficiente, claro, por que os recursos são limitados. Mas sempre escutamos.

- Os dirigentes da DAIA que tiveram a entrevista com você comentaram isso: que os escutou, que admitiu ter cometido um erro e que eles acreditaram.

- Houve problemas e nós os reconhecemos. Melhor aprender errando. Melhor não ocultar as coisas. Assim a vida é melhor. Essa é minha experiência na família, no sindicalismo e no governo.

- Admitir um erro não pode ser tomado como sintoma de debilidade?

- Para mim não. Alguém sempre pergunta por que eu reconheço isso. Quem não comete erros? Lamentamos coisas que não estavam em nossos planos e expressamos nosso reconhecimento.

- Qual é o interesse nacional boliviano com o gasoduto que começou a ser negociado com a Argentina em 2006 e do conversou com a presidenta (Cristina Fernandez Kirchner)?

- A Bolívia, lamentavelmente em boa parte, viveu de seus recursos naturais. Em um primeiro momento a borracha, depois o estanho e, mais tarde, o gás. As relações que iniciamos com o presidente Néstor Kirchner tiveram continuidade com os acordos com a companheira Cristina e com a construção do gasoduto Juana Azurduy, tão importante para os dois povos, um que será abastecido de gás e o outro que se beneficiará disso. Ao mesmo tempo, estamos melhorando a economia da Bolívia e prestando um serviço ao povo argentino. Falei muito sobre isso com a companheira Cristina. Ela conhece o tema. Não parece advogada, mas sim uma petroleira. Garantir energia frente à crise do mundo, no marco da complementariedade, é importante. Nós necessitamos do povo argentino e de seu governo e se eles precisam de nós, aqui estamos. Eu nunca esqueço que, quando nos faltou trigo e farinha para o pão, a Argentina nos socorreu. Não sei como fez, mas o trigo ajudou a nossa felicidade.

- A nova Constituição estabelece um Estado plurinacional. Como está funcionando a construção?

- Nossa história mostra tantos irmãos assassinados, enforcados, esquartejados, discriminados, marginalizados...Houve rebeliões com resultados nefastos, mas nessas rebeliões nossos antepassados defenderam a identidade e os recursos naturais. Agora estamos em uma revolução. Não com balas; Com o voto. O Estado plurinacional se constrói também via um processo de descolonização. Três etapas: Rebelião, revolução, descolonização. Esta etapa não é fácil. Podemos mudar normas e procedimentos pelas quais um funcionário público se converterá em um servidor público. Mas é mais difícil mudar a mentalidade.

- A do funcionário?

- Sim. Por sorte, na Bolívia o povo começa a pensar diferente sobre a política. No passado, o político era visto como delinquente, como um meliante, um ladrão, um farsante. Estamos mudando isso. Agora, ser político é prestar serviço ao povo por tempo determinado.

O que significa por tempo determinado?

- Que depende dos tempos da democracia, dos mandatos, do voto. Antes ser político era dizer: “Isso é meu. Aproveitarei”. Terminamos com isso na Bolívia. O povo era escravo do governo. Em meu gabinete há intelectuais e profissionais que poderiam estar ganhando melhor em outro trabalho. Mas se somam a esse trabalho para prestar um serviço por tempo determinado. E descolonizar também é a busca da soberania com igualdade de todos os bolivianos. Não pode haver uns vivendo no luxo e outros que morrem de fome. Não podem existir essas diferenças de família para família e tampouco de país para país, ou de continente para continente. Esse milênio não deve ser o das oligarquias, hierarquias e monarquias. Olhemos as reações que temos nestes dias em outros continentes. Na Europa, por exemplo. Antes eles olhavam para a América Latina. E o que viam? Os golpes militares, as ditaduras, crises, convulsões, mortos. A Bolívia, antes de eu chegar à presidência, teve cinco presidentes em cinco anos.

- Nós ganhamos: cinco em uma semana.

- Sim. E eu não posso acreditar: entrei no sexto ano da presidência. Isso quer dizer que estamos mudando.

- Bom, e pelo Honoris Causa da Universidade de Córdoba já é o doutor Evo Morales.

-E sou doutor, sim. Mas o que vale é o que estamos mudando no plano estrutural, no econômico e financeiro. Estamos nos libertando financeiramente. O próximo passo é tecnológico e científico. Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade. Falamos muito sobre isso com o companheiro Néstor Kirchner.

- Vocês se conheceram antes da presidência.

- Sim. Néstor foi muito prático em suas recomendações e sugestões. Para mim segue sendo um pai político. Quando comecei como presidente, lá estava Néstor, lá estava Lula, lá estava Chávez para suas sugestões e recomendações.

- Qual foi a recomendação mais importante?

- O serviço ao povo. E lembro a ajuda que me deu em Tarija. Ele me disse: “Se perceber que as empresas não querem investir, pega o telefone e me liga que a Argentina vai investir”. Talvez possa ser entendida como uma mensagem simbólica. Mas foi muito importante. Nós, presidentes, devemos nos ajudar também em temas de investimento.

- Qual é, no plano mundial, a novidade boliviana em termos de identidade e desenvolvimento dos povos originários?

- Programas, por exemplo. Para os setores mais pobres das comunidades indígenas o governo está garantindo 70% do investimento para empreendimentos produtivos. Os beneficiados contribuem com os outros 30%. O Banco Mundial está exportando este programa para a África. Outro programa: a criança que termina o ano escolar recebe um pequeno bônus de 200 bolivianos ao ano. O segredo deste bônus é evitar que haja novos analfabetos. Estamos conseguindo diminuir a evasão escolar, especialmente nas áreas rurais do altiplano e nos bairros periféricos das cidades. Baixamos a evasão de 6 para 2% e temos que impedir que surjam novos analfabetos. Outro programa ainda: os mais pobres, os abandonados, os que trabalharam durante toda a vida, recebem cerca de 200 bolivianos por mês. Não é muito, mas é alguma coisa. Nas áreas rurais, o idoso que recebe sua renda resolve seu problema de água e de luz. E estamos entregando terra, ainda que alguns sejam muito ambiciosos.

- O que querem?

- Em lugar de 50 hectares, querem 150. Não é possível. Alguns dizem: “Aproveito a presidência do companheiro Evo, do irmão Evo, porque depois não haverá essa chance”.

- Como é o estado atual da unidade da Bolívia, sobretudo em relação a Santa Cruz de la Sierra? Os enfrentamentos de 2008 são coisa do passado?

- Antes se falava da meia lua. Isso acabou. Agora é a lua inteira. Nosso movimento se baseia na política do bem viver, não do viver melhor. Seu você quer viver melhor, tem que roubar, saquear os recursos, explorar. Isso nós podemos garantir porque meu partido, o dos mais pobres, dos camponeses indígenas originários, tem dois terços da Câmara de Deputados e dois terços da Câmara de Senadores. Isso nunca aconteceu na história da Bolívia. Há um sentimento popular que simpatiza com as mudanças profundas. E isso apesar das corridas aos bancos, que fracassaram. Ou do boicote para que falte açúcar ou azeite e para que joguem a culpa em cima de mim. Mas estamos sempre preparados para aprender errando, errando.

- Mauricio Macri disse que um dos problemas da Argentina, e repetiu isso, é o que chamou de “imigração descontrolada”. Como reagiu ao ouvi-lo?

- Respeitamos as opiniões de todos. Cada um tem direito a expressar o que pensa e o que sente. Mas somos todos latino-americanos. Todos somos sulamericanos. Temos a obrigação de compartilhar. Mas não só na Bolívia, também na Europa, na Espanha e em outros países o boliviano é visto como honesto e trabalhador. Veio aqui buscar melhores condições de vida. Mas também contribui para o desenvolvimento da Argentina. Assim ocorre sempre com as migrações. As externas e as internas. Na Bolívia vemos o que ocorre com os que chegam a Cochabamba, ou com os que vão de Potosi ou Oruro para Santa Cruz. Por isso, em Santa Cruz se encontra gente de origens tão diferentes. Vão trabalhar. Assim ajudam o desenvolvimento. Na América Latina ocorre o mesmo. Nos complementamos para viver juntos.

Tradução: Katarina Peixoto

Enervista de Evo Morales

América do Sul deve construir uma aliança estratégica”
Em entrevista ao jornal Página/12, o presidente da Bolívia, Evo Morales, fala sobre sua experiência como presidente, sobre os programas sociais que está implantando para beneficiar a população mais pobre e defende uma aliança estratégica entre os países da América do Sul. “Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade”.
Martín Granovsky - Página/12

O jogo da noite entre Argentina e Bolívia e o gasoduto para trazer gás ao norte argentino eram os grandes temas da visita de Evo Morales a Argentina até que surgiu o protesto da comunidade judaica pela viagem do ministro de Defesa iraniano a La Paz. São 11 horas da manhã e Evo acaba de se despedir dos dirigentes da DAIA (Delegação de Associações Israelitas Argentinas). Saíram sorridentes. Talvez contagiados pela tranquilidade que emana hoje desse presidente aymara e ex-dirigente sindical que, no último dia 22 de janeiro, completou cinco anos no Palácio Queimado.

- Nunca sonhei em seu presidente – diz Evo. Nunca pensei que iria ser presidente.

- Nunca?

- Até 2002, jamais. Jamais. Eu, de tão baixo. Quando meus companheiros me propuseram ser candidato à presidência, em 1997, pensei que estavam gozando com minha cara.

- Mas o elegeram deputado.

- Sim. Fui candidato a presidente em 2002, e a candidatura surpreendeu a mim mesmo. Eu candidato? Foi uma satisfação. E depois, em 2005, ganhamos, mas temos muito que seguir aprendendo no novo sentido da política boliviana: antes o povo era escravo do governo. Agora o governo é escravo do povo. Está a serviço do povo.

- Os bolivianos votaram várias vezes em eleições presidenciais e para a reforma da Constituição. Como faz um presidente para avaliar o sentimento popular a cada dia?

- As reuniões com os movimentos sociais permitem saber como servir ao povo. Os resultados de gestão não só satisfazem como causam orgulho quando o povo se sente atendido em suas demandas. Nem sempre é suficiente, claro, por que os recursos são limitados. Mas sempre escutamos.

- Os dirigentes da DAIA que tiveram a entrevista com você comentaram isso: que os escutou, que admitiu ter cometido um erro e que eles acreditaram.

- Houve problemas e nós os reconhecemos. Melhor aprender errando. Melhor não ocultar as coisas. Assim a vida é melhor. Essa é minha experiência na família, no sindicalismo e no governo.

- Admitir um erro não pode ser tomado como sintoma de debilidade?

- Para mim não. Alguém sempre pergunta por que eu reconheço isso. Quem não comete erros? Lamentamos coisas que não estavam em nossos planos e expressamos nosso reconhecimento.

- Qual é o interesse nacional boliviano com o gasoduto que começou a ser negociado com a Argentina em 2006 e do conversou com a presidenta (Cristina Fernandez Kirchner)?

- A Bolívia, lamentavelmente em boa parte, viveu de seus recursos naturais. Em um primeiro momento a borracha, depois o estanho e, mais tarde, o gás. As relações que iniciamos com o presidente Néstor Kirchner tiveram continuidade com os acordos com a companheira Cristina e com a construção do gasoduto Juana Azurduy, tão importante para os dois povos, um que será abastecido de gás e o outro que se beneficiará disso. Ao mesmo tempo, estamos melhorando a economia da Bolívia e prestando um serviço ao povo argentino. Falei muito sobre isso com a companheira Cristina. Ela conhece o tema. Não parece advogada, mas sim uma petroleira. Garantir energia frente à crise do mundo, no marco da complementariedade, é importante. Nós necessitamos do povo argentino e de seu governo e se eles precisam de nós, aqui estamos. Eu nunca esqueço que, quando nos faltou trigo e farinha para o pão, a Argentina nos socorreu. Não sei como fez, mas o trigo ajudou a nossa felicidade.

- A nova Constituição estabelece um Estado plurinacional. Como está funcionando a construção?

- Nossa história mostra tantos irmãos assassinados, enforcados, esquartejados, discriminados, marginalizados...Houve rebeliões com resultados nefastos, mas nessas rebeliões nossos antepassados defenderam a identidade e os recursos naturais. Agora estamos em uma revolução. Não com balas; Com o voto. O Estado plurinacional se constrói também via um processo de descolonização. Três etapas: Rebelião, revolução, descolonização. Esta etapa não é fácil. Podemos mudar normas e procedimentos pelas quais um funcionário público se converterá em um servidor público. Mas é mais difícil mudar a mentalidade.

- A do funcionário?

- Sim. Por sorte, na Bolívia o povo começa a pensar diferente sobre a política. No passado, o político era visto como delinquente, como um meliante, um ladrão, um farsante. Estamos mudando isso. Agora, ser político é prestar serviço ao povo por tempo determinado.

O que significa por tempo determinado?

- Que depende dos tempos da democracia, dos mandatos, do voto. Antes ser político era dizer: “Isso é meu. Aproveitarei”. Terminamos com isso na Bolívia. O povo era escravo do governo. Em meu gabinete há intelectuais e profissionais que poderiam estar ganhando melhor em outro trabalho. Mas se somam a esse trabalho para prestar um serviço por tempo determinado. E descolonizar também é a busca da soberania com igualdade de todos os bolivianos. Não pode haver uns vivendo no luxo e outros que morrem de fome. Não podem existir essas diferenças de família para família e tampouco de país para país, ou de continente para continente. Esse milênio não deve ser o das oligarquias, hierarquias e monarquias. Olhemos as reações que temos nestes dias em outros continentes. Na Europa, por exemplo. Antes eles olhavam para a América Latina. E o que viam? Os golpes militares, as ditaduras, crises, convulsões, mortos. A Bolívia, antes de eu chegar à presidência, teve cinco presidentes em cinco anos.

- Nós ganhamos: cinco em uma semana.

- Sim. E eu não posso acreditar: entrei no sexto ano da presidência. Isso quer dizer que estamos mudando.

- Bom, e pelo Honoris Causa da Universidade de Córdoba já é o doutor Evo Morales.

-E sou doutor, sim. Mas o que vale é o que estamos mudando no plano estrutural, no econômico e financeiro. Estamos nos libertando financeiramente. O próximo passo é tecnológico e científico. Devemos fazer uma aliança estratégica com toda a América do Sul para a tecnologia. Porque a América do Sul já é a mãe de todos os recursos estratégicos do mundo. Temos a Amazônia, água doce...É uma esperança para o mundo. É preciso desenvolver uma nova tese. A tese da vida, da humanidade. Falamos muito sobre isso com o companheiro Néstor Kirchner.

- Vocês se conheceram antes da presidência.

- Sim. Néstor foi muito prático em suas recomendações e sugestões. Para mim segue sendo um pai político. Quando comecei como presidente, lá estava Néstor, lá estava Lula, lá estava Chávez para suas sugestões e recomendações.

- Qual foi a recomendação mais importante?

- O serviço ao povo. E lembro a ajuda que me deu em Tarija. Ele me disse: “Se perceber que as empresas não querem investir, pega o telefone e me liga que a Argentina vai investir”. Talvez possa ser entendida como uma mensagem simbólica. Mas foi muito importante. Nós, presidentes, devemos nos ajudar também em temas de investimento.

- Qual é, no plano mundial, a novidade boliviana em termos de identidade e desenvolvimento dos povos originários?

- Programas, por exemplo. Para os setores mais pobres das comunidades indígenas o governo está garantindo 70% do investimento para empreendimentos produtivos. Os beneficiados contribuem com os outros 30%. O Banco Mundial está exportando este programa para a África. Outro programa: a criança que termina o ano escolar recebe um pequeno bônus de 200 bolivianos ao ano. O segredo deste bônus é evitar que haja novos analfabetos. Estamos conseguindo diminuir a evasão escolar, especialmente nas áreas rurais do altiplano e nos bairros periféricos das cidades. Baixamos a evasão de 6 para 2% e temos que impedir que surjam novos analfabetos. Outro programa ainda: os mais pobres, os abandonados, os que trabalharam durante toda a vida, recebem cerca de 200 bolivianos por mês. Não é muito, mas é alguma coisa. Nas áreas rurais, o idoso que recebe sua renda resolve seu problema de água e de luz. E estamos entregando terra, ainda que alguns sejam muito ambiciosos.

- O que querem?

- Em lugar de 50 hectares, querem 150. Não é possível. Alguns dizem: “Aproveito a presidência do companheiro Evo, do irmão Evo, porque depois não haverá essa chance”.

- Como é o estado atual da unidade da Bolívia, sobretudo em relação a Santa Cruz de la Sierra? Os enfrentamentos de 2008 são coisa do passado?

- Antes se falava da meia lua. Isso acabou. Agora é a lua inteira. Nosso movimento se baseia na política do bem viver, não do viver melhor. Seu você quer viver melhor, tem que roubar, saquear os recursos, explorar. Isso nós podemos garantir porque meu partido, o dos mais pobres, dos camponeses indígenas originários, tem dois terços da Câmara de Deputados e dois terços da Câmara de Senadores. Isso nunca aconteceu na história da Bolívia. Há um sentimento popular que simpatiza com as mudanças profundas. E isso apesar das corridas aos bancos, que fracassaram. Ou do boicote para que falte açúcar ou azeite e para que joguem a culpa em cima de mim. Mas estamos sempre preparados para aprender errando, errando.

- Mauricio Macri disse que um dos problemas da Argentina, e repetiu isso, é o que chamou de “imigração descontrolada”. Como reagiu ao ouvi-lo?

- Respeitamos as opiniões de todos. Cada um tem direito a expressar o que pensa e o que sente. Mas somos todos latino-americanos. Todos somos sulamericanos. Temos a obrigação de compartilhar. Mas não só na Bolívia, também na Europa, na Espanha e em outros países o boliviano é visto como honesto e trabalhador. Veio aqui buscar melhores condições de vida. Mas também contribui para o desenvolvimento da Argentina. Assim ocorre sempre com as migrações. As externas e as internas. Na Bolívia vemos o que ocorre com os que chegam a Cochabamba, ou com os que vão de Potosi ou Oruro para Santa Cruz. Por isso, em Santa Cruz se encontra gente de origens tão diferentes. Vão trabalhar. Assim ajudam o desenvolvimento. Na América Latina ocorre o mesmo. Nos complementamos para viver juntos.

Tradução: Katarina Peixoto