Sobre o Marxismo na Linguistica
J. Stálin
20 de Junho de 1950
Primeira Edição:....Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 28 - Julho de 1950. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, março 2009.Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
UM GRUPO de jovens camaradas dirigiu-se a mim para me propor que opinasse pela imprensa sobre os problemas da lingüística, principalmente no que diz respeito ao marxismo na lingüística. Não sou lingüista e não posso, evidentemente, satisfazer de todo aos camaradas. Quanto ao marxismo em lingüística, do mesmo modo que nas outras ciências sociais, trata-se de um assunto com o qual eu tenho relação direta. Aí está porque aceitei responder a uma série de perguntas colocadas por esses camaradas.
Pergunta: — É exato que a língua seja uma super-estrutura sobre uma infra-estrutura?
RESPOSTA: — Não, não é exato.
A INFRA-ESTRUTURA é o regime econômico da sociedade numa etapa determinada de seu desenvolvimento. A super-estrutura são as opiniões políticas, jurídicas, religiosas, artísticas, filosóficas da sociedade e as instituições políticas, jurídicas e outras que lhes correspondem.
Toda infra-estrutura tem sua superestrutura correspondente. A infra-estrutura do regime feudal tem sua super-estrutura, suas opiniões políticas, jurídicas e outras, e as instituições a elas correspondentes; a infra-estrutura capitalista tem sua super-estrutura e a infra-estrutura socialista a sua. Se a infra-estrutura se transforma e desaparece, ela acarreta a transformação e o desaparecimento de sua super-estrutura; se nasce uma infra-estrutura nova, ela acarreta o nascimento da super-estrutura que lhe corresponde.
Sob esse aspecto, a língua se diferencia radicalmente da super-estrutura. Tomemos por exemplo a sociedade russa e a língua russa. Durante os últimos trinta anos, na Rússia, a velha infra-estrutura capitalista foi liquidada o foi construída uma nova, socialista. Em conseqüência, a super-estrutura da infra-estrutura capitalista foi liquidada e criou-se uma nova super-estrutura correspondente à infra-estrutura socialista. As velhas instituições políticas, jurídicas e outras foram, por conseqüência, substituídas por instituições novas, socialistas, Mas, apesar disso, a língua russa continuou, no essencial, o que ela era antes da Revolução de Outubro.
O que foi que mudou na língua russa durante esse período? O vocabulário da língua russa mudou em certa medida; mudou no sentido de que enriqueceu com uma quantidade importante de novas palavras e expressões nascidas com a nova produção socialista, com o novo Estado, a nova cultura socialista, a nova sociedade, a nova moral, e enfim com o desenvolvimento da técnica e da ciência; o sentido de uma série de palavras e expressões modificou-se, adquirindo um novo significado; certo número de palavras antiquadas desapareceram do vocabulário. No que diz respeito ao léxico fundamental e ao sistema gramatical que são a base da língua, não somente não foram liquidados e substituídos depois da liquidação da infra-estrutura capitalista por um novo léxico fundamental e por um novo sistema gramatical da língua, mas foram conservados na sua integridade e não sofreram nenhuma modificação séria: mantiveram-se exatamente como base da língua russa moderna.
Prossigamos. A super-estrutura é gerada pela infra-estrutura, mas isso não significa absolutamente que ela seja apenas o reflexo da infra-estrutura, que seja passiva, neutra, que permaneça indiferente ao destino de sua infra-estrutura, ao destino das classes, ao caráter do regime. Ao contrário depois de ter vindo à luz, ela se toma uma imensa força ativa, ajuda ativamente sua infra-estrutura a se formar e consolidar, recorre a todos os meios para auxiliar o novo regime a dar o golpe de graça na velha infra-estrutura e nas velhas classes, e a liquidá-las.
E não pode ser de outro modo. A super-estrutura é criada pela infra-estrutura exatamente para servi-Ia, para ajudá-la ativamente a se formar e consolidar, para lutar ativamente a fim de liquidar a velha infra-estrutura caduca e sua velha super-estrutura. Basta que a super-estrutura renuncie a esse papel de auxiliar, basta-lhe passar de uma posição de defesa ativa de sua infra-estrutura para uma posição de indiferença relativamente a esta, basta adotar uma atitude idêntica em face de todas as classes, para que perca sua qualidade e deixe de ser uma super-estrutura.
Sob esse aspecto, a língua difere radicalmente da super-estrutura. A língua não é gerada por tal ou qual infra-estrutura, velha ou nova, no interior de uma determinada sociedade mas por todo o transcurso da história da sociedade e da história das infra-estruturas ao longo dos séculos. Ela não é criada por uma só classe, mas por toda a sociedade, por todas as classes da sociedade, pelos esforços de centenas de gerações. Ela não é criada para satisfazer às necessidades de uma só classe, mas de toda a sociedade, de todas as classes da sociedade. Ela é criada justamente como língua única para toda a sociedade e comum a todos os membros da sociedade, como língua de todo o povo. Por isso, o papel auxiliar desempenhado pela língua, como meio de os homens se comunicarem entre si, não consiste em servir a uma classe em detrimento das outras classes, mas em servir indiferentemente a toda a sociedade, a todas as classes da sociedade. É isso exatamente que explica que a língua possa servir indiferentemente tanto ao velho regime agonizante, como ao novo regime ascendente, tanto à velha infra-estrutura como a nova. tanto aos exploradores como aos explorados.
Não é um segredo para ninguém que a língua russa serviu tanto ao capitalismo russo e à cultura burguesa russa antes da Revolução de Outubro, como serve hoje ao regime socialista e à cultura socialista da sociedade russa.
Deve-se dizer a mesma coisa do ucraniano, do bielorusso, do uzbeque, do kazakh, do georgiano, do armênio, do estoniano, do letão, do lituano, do moldavo, do tártaro, do azerbaijano, do bachkir, do turcomano e das outras línguas das nações soviéticas que tanto serviram ao velho regime burguês dessas nações como servem hoje ao novo regime socialista.
E não pode ser de outro modo. É para isso que a língua existe, para isso ela foi criada: para servir à sociedade em seu conjunto, de instrumento que permita aos homens comunicar-se entre si; para ser comum aos membros da sociedade e única para a sociedade, para servir igualmente aos membros da sociedade, independentemente de sua situação de classe. Basta que a língua abandone essa posição de instrumento comum a todo o povo, basta que a língua se ponha a preferir e a apoiar um grupo social qualquer em detrimento dos outros grupos sociais, para que ela perca sua validade, para que deixe de ser o meio de os homens se comunicarem entre si, para que se transforme numa gíria de um grupo social qualquer, se degrade e se condene a desaparecer.
Desse ponto de vista, distinguindo-se fundamentalmente da super-estrutura, a língua não se distingue, porém, dos meios de produção, das máquinas por exemplo, que são tão indiferentes às classes como a língua e que podem servir indiferentemente tanto ao regime capitalista como ao regime socialista.
Prossigamos. A super-estrutura é o produto de uma época durante a qual vive e age uma infra-estrutura econômica determinada. Eis porque a super-estrutura não vive muito tempo; é liquidada e desaparece ao mesmo tempo que a infra-estrutura determinada.
A língua, ao contrário, é o produto de toda uma série de épocas durante as quais se forma, se enriquece, se desenvolve e ganha brilho. Eis porque a língua vive incomparavelmente mais tempo do que qualquer infra-estrutura ou qualquer super-estrutura. É justamente o que explica que o nascimento e a liquidação, não somente de uma infra-estrutura e de sua super-estrutura, mas de muitas infra-estruturas e de suas super-estruturas correspondentes não conduzem, na história, à liquidação de uma língua determinada, à liquidação de sua estrutura e ao nascimento de uma língua nova com um vocabulário novo e um sistema gramatical novo.
Mais de cem anos são transcorridos depois da morte de Puchkin. Desde então, na Rússia, o regime feudal e o regime capitalista foram liquidados e nasceu um terceiro, o regime socialista. Portanto, duas infra-estruturas, suas super-estruturas foram liquidadas e uma nova infra-estrutura socialista nasceu com sua nova super-estrutura. Contudo, se consideramos a língua russa, por exemplo, durante esse longo período ela não sofreu nenhuma transformação fundamental e a língua russa moderna difere pouco da de Puchkin por sua estrutura.
O que mudou na língua russa desde aquela época? O vocabulário da língua russa se enriqueceu notavelmente nesse lapso de tempo; grande quantidade de palavras antiquadas desapareceu do vocabulário; mudou o sentido de um número considerável de palavras; o sistema gramatical foi melhorado. No concernente à estrutura da língua de Puchkin, ela se conservou em toda a sua essência, com seu sistema gramatical e seu léxico fundamental, como base da língua russa moderna.
E isso é perfeitamente compreensível. De fato, de que serviria que depois do cada convulsão, a estrutura existente da língua, seu sistema gramatical e seu léxico fundamental fossem destruídos e substituídos por outros novos, como acontece habitualmente com a super-estrutura? De que serviria que "água", "terra", "montanha", "floresta", "peixe", "homem"' "andar", "fazer", "produzir", "comerciar", etc., não se chamassem mais água, terra, montanha, etc., mas outra coisa? A quem aproveitaria que as variações das palavras na língua e a disposição das palavras na frase não se fizessem segundo a gramática existente, mas segundo uma outra, inteiramente diferente? Que proveito tiraria a revolução de semelhante transformação radical nas línguas? Via de regra a história não faz nada de essencial sem que haja para isso uma necessidade particular. Cabe perguntar para que seria necessária uma tal transformação radical na língua, uma vez que está provado que a língua existente, com sua estrutura, satisfaz perfeitamente, no essencial, às necessidades do novo regime? Pode-se e deve-se destruir a velha super-estrutura e substituí-la por uma nova em alguns anos, para deixar o campo livre ao desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, mas como destruir a língua existente e criar em seu lugar uma língua nova em alguns anos, sem provocar anarquia na vida social, sem ameaçar a sociedade de desagregação? Quem pois, além dos don Quixotes, pode atribuir-se uma tal tarefa?
Enfim, há ainda uma diferença radical entre a super-estrutura e a língua. A super-estrutura não está ligada diretamente à produção, à atividade produtiva do homem. Ela só está ligada à produção indiretamente, por meio da economia, por meio da infra-estrutura. Eis porque a super-estrutura não reflete as mudanças no nível de desenvolvimento das forças produtivas imediata e diretamente, mais depois das mudanças na infra-estrutura, por refração das mudanças da produção nas mudanças da infra-estrutura. Isso quer dizer que a esfera de ação da super-estrutura é estreita e limitada.
A língua, ao contrário, está ligada diretamente à atividade produtiva do homem e não somente à sua atividade produtiva, mas também a qualquer outra atividade do homem em todas as esferas de seu trabalho, desde a produção até a infra-estrutura, desde a infra-estrutura até a super-estrutura. Eis porque a língua reflete as mudanças da produção imediata e diretamente, sem esperar as mudanças na infra-estrutura. Eis porque a esfera de ação da língua, que engloba todos os domínios da atividade do homem, é muito mais vasta e mais variada que a esfera de ação da super-estrutura. Mais ainda, ela é quase ilimitada.
É isso que explica, sobretudo, que a língua, seu vocabulário propriamente dito, se encontre em estado de modificação quase ininterrupta. O desenvolvimento ininterrupto da indústria e da agricultura, do comércio e dos transportes, da técnica e da ciência, exige da língua que ela enriqueça seu vocabulário com novas palavras e expressões indispensáveis a seu trabalho. E a língua, que reflete diretamente essas necessidades, enriquece seu vocabulário com novas palavras, aperfeiçoa seu sistema gramatical.
Portanto:
a) um marxista não pode considerar a língua como uma super-estrutura sobre uma infra-estrutura;
b) confundir a língua com uma super-estrutura é cometer um erro.
Pergunta: — É exato que a língua sempre teve e conserva um caráter de classe, que não existe uma língua comum e única para a sociedade, uma língua que não tenha um caráter de classe mas que seja a de todo o povo?
RESPOSTA: Não, não é exato.
Não é difícil compreender que numa sociedade sem classes, não pode haver uma língua de classe. O regime do comunismo primitivo não conhecia classes, por conseguinte, nele não podia haver língua de classe, nele a língua era comum, única para toda a coletividade. A objeção segundo a qual deve-se entender por classe toda a coletividade humana, inclusive a coletividade comunal primitiva, não é uma objeção, mas um jogo de palavras que não merece ser refutado.
Quanto ao desenvolvimento posterior das línguas, — das línguas dos clãs às línguas das tribos, das línguas das tribos às línguas dos povos, e das línguas dos povos às línguas nacionais — em toda parte, em todas as fases de seu desenvolvimento, a língua, como meio de os homens se comunicarem entre si na sociedade, era comum e única para a sociedade, servindo do mesmo modo aos membros da sociedade, independentemente de suas condições sociais.
Não me refiro aqui aos impérios do período da escravidão e da Idade Média, como, por exemplo, o império de Ciro e de Alexandre o Grande ou ainda o império de César e de Carlos Magno que não tinham base econômica própria e eram formações militares-administrativas, efêmeras e instáveis. Estes impérios não somente não tinham, como não podiam ter uma língua única para o império e inteligível para todos os membros do império. Representavam conglomerados de tribos e de povos que tinham sua própria vida e sua própria língua. Por isso, não me refiro a estes impérios ou a outros que lhes são semelhantes, mas às tribos e aos povos que faziam parte do império e que tinham sua base econômica e sua língua formada há muito tempo. A história mostra que as línguas destas tribos e destes povos não tinham um caráter de classe, que eram línguas de todo o povo, comuns às tribos e aos povos, e inteligíveis para eles.
Certamente havia, ao lado dos dialetos, modismos locais, mas eram dominados e subordinados pela língua única e comum, da tribo ou do povo.
Mais tarde, com o aparecimento do capitalismo, a liquidação do desmembramento feudal e a formação de um mercado nacional, os povos se transformaram em nações e as línguas dos povos em línguas nacionais. A história mostra que essas línguas nacionais não são línguas de classe mas línguas comuns ao conjunto do povo, comuns a todos os membros da nação e únicas para a nação.
Foi dito acima que a língua como meio de os homens se comunicarem entre si na sociedade, serve paralelamente a todas as classes da sociedade e manifesta sob esse aspecto uma espécie de indiferença relativamente às classes. Mas as pessoas, os diferentes grupos sociais, as classes estão longe de ser indiferentes à língua. Elas se esforçam para utilizar a língua no seu interesse, para impor-lhe seu vocabulário particular, sua terminologia particular, suas expressões particulares. As camadas superiores das classes possuidoras, que se isolaram do povo que odeiam o povo; a aristocracia dos nobres, as camadas superiores da burguesia, — se distinguem especialmente sob esse aspecto. Vemos criar-se gírias, dialetos de "classe", "línguas" de salão. Na literatura, esses dialetos e gírias são às vezes erroneamente considerados como línguas: "a língua nobre", "a língua burguesa", em oposição à "língua proletária, à "língua camponesa". Por estranho que isso possa parecer, é por essa razão que certos de nossos camaradas chegaram à conclusão de que a língua nacional é uma ficção, que somente as línguas de classe existem na realidade.
Creio não haver nada mais errôneo do que essa conclusão. Podemos considerar esses dialetos e gírias como línguas? Por certo que não. Nãp podemos fazer isso, em primeiro lugar: porque esses dialetos e essas gírias não possuem seu sistema gramatical nem seu léxico fundamental, tomam-nos emprestado à língua nacional. Em segundo lugar, porque essas línguas e essas gírias têm uma esfera de aplicação estreita entre os membros das camadas superiores desta ou daquela classe e não são absolutamente válidas como meio de os homens se comunicarem entre si, para a sociedade em seu conjunto. Que têm eles, então? Têm um certo número de palavras específicas que refletem os gostos específicos da aristocracia ou das camadas superiores da burguesia; certo número de expressões e de ditos que se distinguem por seu caráter rebuscado, precioso e isento das expressões e ditos "grosseiros" da língua nacional; finalmente, certo número de palavras estrangeiras. Quanto ao essencial, isto é, a maioria esmagadora das palavras e o sistema gramatical, é tomado emprestado à língua de todo o povo, à língua nacional. Por conseguinte, os dialetos e gírias representam ramificações da língua nacional de todo o povo, são privados de qualquer independência lingüística e destinados a vegetar. Pensar que os dialetos e gírias possam se transformar em línguas independentes, capazes de afastar e de substituir a língua nacional, é perder a perspectiva histórica e abandonar as posições do marxismo.
Alude-se a Marx, cita-se uma passagem de seu artigo "São-Max" em que ele diz que os burgueses têm sua "língua própria", que essa língua "é produto da burguesia", que ela é marcada pelo espírito do mercantilismo, da venda e da compra. Por meio desta citação, certos camaradas querem demonstrar que Marx afirmava por assim dizer "o caráter de classe da língua", que ele negava a existência de uma língua nacional única. Se esses camaradas abordassem a questão objetivamente, deveriam ter citado uma outra passagem desse mesmo artigo "São-Max", em que Marx, tratando da questão dos caminhos da formação da língua nacional única, fala da "concentração dos dialetos numa língua nacional única, em função da concentração econômica e política".
Marx reconhecia portanto a necessidade de uma língua nacional única como forma superior à qual os dialetos estão subordinados como forma inferior.
Que pode ser, nesse caso, a língua dos burgueses que, segundo Marx, "é, o produto da burguesia"? Marx a considerava como uma língua semelhante à língua nacional, possuindo uma estrutura lingüística própria?
Podia ele considerá-la como uma língua assim ? Não, certamente! Marx queria dizer simplesmente que os burgueses infestaram a língua nacional única com seu vocabulário de mercadores, que, por conseguinte, os burgueses têm sua gíria de mercadores.
Daí se conclui que aqueles camaradas desvirtuaram a posição de Marx. E a desvirtuaram porque citaram Marx, não como marxistas, mas como escolásticos, não indo ao fundo do problema.
Alude-se a Engels, cita-se palavras de Engels na sua obra "A situação da classe operária na Inglaterra”:
"...A classe operária tornou-se aos poucos um povo inteiramente diferente da burguesia inglesa"; "os operários falam um outro dialeto, têm outras idéias e concepções, outros costumes e outros princípios de moral, outra religião e outra política diferente da burguesia".
Na base dessa citação, certos camaradas deduzem que Engels negava a necessidade de uma língua nacional comum a todo o povo, que ele afirmava, por conseguinte, "o caráter de classe" da língua... A verdade é que Engels não fala aqui da língua, mas do dialeto, dando-se perfeitamente conta que o dialeto, como ramificação da língua nacional, pode substituí-la. Mas esses camaradas, visivelmente, não encaram com bons olhos a existência de uma diferença entre língua e dialeto...
É claro que essa citação é empregada fora de propósito, pois Engels não fala aqui em "línguas de classe", mas sobretudo das idéias, das concepções, dos costumes, dos princípios de moral, da religião, da política de classe. É perfeitamente justo que as idéias, as concepções, os costumes, princípios de moral, a religião, a política sejam diametralmente opostos nos burgueses e nos proletários. Mas o que tem a ver com isso a língua nacional ou "o caráter de classe" da língua? Será que a existência de contradições de classes na sociedade pode servir de argumento a favor “do caráter de classe” da língua ou contra a necessidade de uma língua nacional única ? O marxismo diz que a comunidade de língua é um dos traços essências da nação, sabendo perfeitamente, por outro lado, que dentro das nações existem contradições de classe. Aceitam estes camaradas esta tese do marxismo? Alude-se a Lafargue para dizer que na sua brochura "A língua francesa antes e depois da revolução", Lafargue reconhece "o caráter de classe" da língua e que ele nega, por assim dizer, a necessidade de uma língua nacional comum a todo o povo. Não é exato. Lafargue fala, efetivamente, da "língua nobre", ou "aristocrática", e das "gírias" das diferentes camadas da sociedade. Mas esses camaradas esquecem que Lafargue, que se desinteressa pelo problema da diferença entre a língua e a gíria e que chama aos dialetos ora "língua artificial", ora “gíria", afirma claramente em sua brochura que a "língua artificial, que distinguia a aristocracia... era extraída da vulgar, falada pelos burgueses e pelos artesãos, a cidade e o campo".
Lafargue reconhece pois a existência e a necessidade de uma língua de todo o povo, compreendendo perfeitamente o caráter subordinado e a dependência da "língua aristocrática" e dos outros dialetos e gírias em face da língua de todo o povo.
Dai se conclui que a referência a Lafargue não cumpre seu objetivo.
Alega-se como argumento que, num certo momento, na Inglaterra, os feudais ingleses falaram "durante séculos" a língua francesa, enquanto o povo inglês falava a língua inglesa, e pretende-se que esta circunstância seja um argumento a favor do "caráter de classe" da língua, e contra a necessidade de uma língua comum a todo o povo. Isso não é um argumento mas uma simples anedota. Em primeiro lugar, não eram todos os feudais, mas um grupo estreito da aristocracia feudal inglesa na corte real e nos condados que falava então o francês. Em segundo lugar, eles não falavam uma língua "de classe", mas a língua francesa comum, a língua de todo o povo francês. Em terceiro lugar, sabe-se que essa predileção pela língua francesa desapareceu mais tarde sem deixar sinal, dando lugar à língua comum a todo o povo inglês. Crêem esses camaradas que os feudais ingleses e o povo inglês se tenham entendido "durante séculos" com a ajuda de tradutores, que os feudais ingleses não se serviam da língua inglesa, que não existia nessa época uma língua inglesa comum a todo o povo, que o francês era então na Inglaterra algo mais que uma língua de salão só tendo curso nos círculos estreitos das camadas superiores da aristocracia inglesa? Como se pode, na base de tais "argumentos" anedóticos, negar a existência e a necessidade de uma língua comum a todo o povo?
Durante algum tempo, os aristocratas russos, também, se entretiam falando francês na corte dos tzares e nos salões. Orgulhavam-se de balbuciar palavras francesas ao falar russo, de não saber falar russo sem o sotaque francês. Quer isso dizer que nessa época, na Rússia, não existia uma língua comum a todo o povo, que a língua comum a todo o povo era então uma ficção, e as "línguas de classe" uma realidade? Nossos camaradas cometem aqui pelo menos dois erros. O primeiro erro consiste em que confundem a língua com a super-estrutura. Pensam que se a super-estrutura tem um caráter de classe, a língua, também, não deve ser comum a todo o povo, mas deve ter um caráter de classe. Contudo, já disse acima que a língua e a super-estrutura são duas noções diferentes, que um marxista não pode admitir que se confundam.
O segundo erro consiste no fato de que esses camaradas consideram a oposição entre os interesses da burguesia e os do proletariado, sua encarniçada luta de classes, como a desagregação da sociedade, como a ruptura de todos os laços entre as classes hostis. Na sua opinião, já que a sociedade se desagregou e não existe mais sociedade única, mas somente classes, não é preciso uma língua única para a sociedade, não é preciso uma língua nacional. Que resta pois se a sociedade se desagregou e se não existe mais língua nacional comum a todo o novo? Restam as classes e as “línguas de classe". Naturalmente, cada "língua de classe" terá sua gramática "de classe": uma gramática "proletária", outra gramática "burguesa". É verdade que tais gramáticas não existem na realidade. Mas isso não importa a estes camaradas: eles crêem que um dia haverá tais gramáticas.
Num dado momento, tivemos "marxistas" que afirmavam que as estradas de ferro que permaneceram em nosso país depois da Revolução de Outubro eram burguesas, e que não convinha a nós, marxistas, nos utilizarmos delas, que era preciso destruí-las e construir novas estradas ferro, "proletárias". Isso lhes valeu o apelido de "trogloditas"...
É claro que essa visão primitiva, anarquista, da sociedade, das classes, da língua, nada tem de comum com o marxismo. Mas ela existe, sem nenhuma dúvida, e continua a viver na cabeça de certos camaradas nossos que se embrulharam nesse problema.
É evidentemente falso que, em conseqüência da luta de classes encarniçada, a sociedade se tenha desagregado em classes que não são mais ligadas economicamente uma à outra dentro da própria sociedade. Ao contrário,enquanto existir o capitalismo, os burgueses e os proletários estarão ligados entre si por todos os fios econômicos, como elementos da mesma sociedade capitalista. Os burgueses não podem viver e enriquecer sem ter assalariados à sua disposição; os proletários não podem continuar a existir sem empregar-se com os capitalistas. A ruptura de todos os laços econômicos entre eles significa cessar toda produção, e cessar toda produção leva à morte da sociedade, à morte das próprias classes. É claro que nenhuma classe quererá marchar para sua destruição. Eis porque a luta de classes, por mais violenta que seja, não pode levar à desagregação da sociedade. Somente a ignorância em matéria de marxismo e a incompreensão total da natureza da língua poderiam sugerir a certos camaradas nossos a fábula da desagregação da sociedade, das "línguas de classe", das gramáticas "de classe”.
Alude-se, além disso, a Lênin e recorda-se que Lênin reconhecia a existência de duas culturas sob o capitalismo, a cultura burguesa e a cultura proletária, que a palavra de ordem de cultura nacional sob o capitalismo era uma palavra de ordem nacionalista. Tudo isso é exato e Lênin tinha nisso inteira razão. Mas o que tem a ver com isso o "caráter de classe" da língua? Referindo-se as palavras de Lênin concernentes às duas culturas sob o capitalismo, estes camaradas querem, visivelmente, persuadir o leitor de que a existência do duas culturas na sociedade — a cultura burguesa e a cultura proletária — significa que deve haver também duas línguas, porque a língua está ligada à cultura, que, por conseguinte, Lênin nega a necessidade de uma língua nacional única, que ele é, por conseguinte, pelas línguas "de classe". O erro desses camaradas consiste aqui no fato de que identificam e confundem a língua com a cultura. Contudo, a língua e a cultura são duas coisas diferentes. A cultura pode ser burguesa ou socialista. Alíngua, esta, como meio de comunicação, é sempre uma língua comum a todo o povo e tanto pode servir à cultura burguesa como à cultura socialista. Não é um fato que as línguas russa, ucraniana, usbeca, servem hoje à cultura socialista dessas nações, do mesmo modo que serviam à sua cultura burguesa antes da Revolução de Outubro? Esses camaradas se enganam portanto redondamente ao afirmar que a existência de duas culturas diferentes leva à formação de duas línguas diferentes e à negação da necessidade de uma língua única.
Falando de duas culturas, Lênin partia exatamente da tese de que a existência de duas culturas não pode conduzir à negação de uma língua única e à formação de duas línguas, de que a língua deve ser única. Quando os homens do Bund puseram-se a acusar Lênin de ter negado a necessidade de uma língua nacional e de considerar a cultura como "não-nacional, Lênin, como é sabido, protestou violentamente e declarou que lutava contra a cultura burguesa e não contra a língua nacional cuja necessidade era para ele indiscutível. É estranho que certos camaradas nossos tenham começado a seguir as pegadas dos homens do Bund.
Quanto à língua única, cuja necessidade se pretende que Lênin tenha negado, é preciso referir-se às seguintes palavras de Lênin:
"A língua é um meio essencial de comunicação entre os homens: a unidade da língua e seu desenvolvimento sem obstáculos são uma das condições essenciais para as trocas comerciais verdadeiramente livres e amplas, correspondentes ao capitalismo contemporâneo, para um agrupamento livre e amplo da população em todas as diversas classes".
Daí se conclui que esses estimados camaradas desvirtuaram as idéias de Lênin.
Alude-se finalmente a Stálin. Cita-se as palavras de Stálin dizendo que "a burguesia e seus partidos nacionalistas foram e continuam sendo, durante este período, a principal força dirigente dessas nações". Tudo isso é exato. A burguesia e seu partido nacionalista dirigem efetivamente a cultura burguesa, do mesmo modo que o proletariado e seu partido internacionalista dirigem a cultura proletária. Mas que tem a ver com isso o "caráter de classe" da língua? Ignoram esses camaradas que a língua nacional é uma forma da cultura nacional, que a língua nacional pode servir tanto à cultura burguesa como à cultura socialista? Ignoram esses camaradas a conhecida tese dos marxistas, segundo a qual as culturas atuais russa, ucraniana, bielorussa e outras são socialistas por seu conteúdo e nacionais pela forma, isto é, pela língua? Concordam eles com essa tese marxista?
O erro de nossos camaradas, reside em que não vêm a diferença entre a cultura e a língua e não compreendem que o contendo da cultura se modifica em cada período novo do desenvolvimento da sociedade, enquanto a língua permanece, no essencial, a mesma durante vários períodos e serve indiferentemente à nova cultura e à velha cultura.
Portanto:
a língua, como meio de comunicação, sempre foi e continua sendo única para a sociedade e comum a todos os membros da sociedade;
a existência dos dialetos e das gírias não prejudica, mas confirma a existência de uma língua comum a todo o povo, de uma língua da qual esses dialetos e gírias são ramificações e à qual estão subordinados;
a tese sobre o caráter de classe da língua é uma tese errônea, não marxista.
Pergunta: — Quais são os traços característicos da língua?
RESPOSTA: — A LÍNGUA faz parte dos fenômenos sociais que se manifestam ao longo da existência da sociedade. Ela nasce e se desenvolve com o nascimento e o desenvolvimento da sociedade. Ela morre ao mesmo tempo que a sociedade. Não há língua fora da sociedade. Eis porque não se pode compreender a língua e as leis de seu desenvolvimento senão estudando a língua em ligação indissolúvel com a história da sociedade, com a história do povo a que pertence a língua estudada e que é seu criador e portador.
A língua é um meio, um instrumento, com o auxílio do qual os homens se comunicam entre si, trocam seus pensamentos e chegam a se compreender mutuamente. Diretamente ligada ao pensamento, a língua registra e fixa em palavras e em arranjos de palavras, em frases os resultados do trabalho do pensamento, os êxitos do trabalho de conhecimento do homem e torna assim possível a troca de pensamentos na sociedade humana.
A troca de pensamentos é uma necessidade permanente e vital, porque sem essa troca é impossível coordenar as ações comuns dos homens na luta contra as forças da natureza, na luta pela produção dos bens materiais indispensáveis, é impossível obter êxitos na atividade produtiva da sociedade, e, por conseguinte, é impossível a própria existência da produçãosocial. Portanto, sem uma língua inteligível para a sociedade e comum a todos os seus membros, a sociedade cessa a produção, se desagrega e deixa de existir como sociedade. Nesse sentido, a língua, sendo um instrumento de comunicação, é ao mesmo tempo um instrumento de luta e de desenvolvimento da sociedade.
É sabido que todas as palavras de que se compõe a língua formam no seu conjunto o que se chama o vocabulário. O essencial no vocabulário, é o léxico fundamental que tem por sua vez como núcleo todos os termos radicais. O léxico fundamental é muito menos vasto que o vocabulário, mas vive durante muito tempo, durante séculos, e serve de base à formação de palavras novas. O vocabulário reflete o estado da língua; quanto mais rico e variado é o vocabulário, mais rica e desenvolvida é a língua.
Entretanto, tomado isoladamente, o vocabulário não forma ainda a língua, é antes o material de construção da língua. Da mesma forma que os materiais de construção não formam o edifício, embora seja impossível construir sem eles, o vocabulário não constitui a própria língua, embora sem ele não seja concebível nenhuma língua. Mas o vocabulário se reveste da maior importância quando entra no domínio da gramática que fixa as regras da variação das palavras, as regras de sua disposição nas frases e dá assim à língua um caráter harmonioso e racional. A gramática (morfologia, sintaxe) é um conjunto de regras sobre a variação das palavras e sobre a disposição das palavras na frase. Em conseqüência, é precisamente graças à gramática que a língua pode dar ao pensamento humano um invólucro material: o da língua.
O traço característico da gramática, é que ela fornece as regras da variação das palavras, tendo em vista, não as palavras concretas, mas as palavras em geral privadas de todo caráter concreto; ela fornece as regras da formação das frases tendo em vista não determinadas frases concretas, por exemplo, um sujeito concreto, um predicado concreto, etc., mas, em geral, toda espécie de frases, independentemente da forma concreta de tal ou qual frase. Por conseguinte, fazendo abstração do particular e do concreto tanto nas palavras como nas proposições, a gramática toma daquilo que há de geral na base das variações das palavras e de sua disposição frases e tira disso as regras, as leis gramaticais. A gramática é o resultado de um longo trabalho de abstração do pensamento humano, o expoente de êxitos imensos do pensamento.
Sob esse aspecto a gramática lembra a geometria que determina suas leis, fazendo abstração dos objetos concretos, considerando os objetos como corpos privados de todo caráter concreto e estabelecendo entre eles relações que não são relações concretas entre determinados objetos concretos, mas relações entre corpos em geral privados de qualquer caráter concreto.
Ao contrário da super-estrutura que não está ligada à produção diretamente, mas por meio da economia, a língua está diretamente ligada à atividade produtiva do homem, bem como a toda e qualquer atividade em todas as esferas de seu trabalho, sem exceção. Assim, o vocabulário, como elemento mais sensível às transformações, encontra-se em estado de transformação quase perpetua; deve-se notar que diferentemente da super-estrutura, a língua não precisa aguardar a liquidação da infra-estrutura ela modifica seu vocabulário antes da liquidação da infra-estrutura e independentemente do estado desta última.
Todavia, o vocabulário da língua não se transforma, como a super-estrutura, por meio da supressão do antigo e da edificação do novo, mas enriquecendo o vocabulário existente com palavras novas que se formaram em ligação com as mudanças do regime social, com o desenvolvimento da produção, da cultura, da ciência, etc. Se bem que o vocabulário perca, via de regra, uma certa quantidade de palavras envelhecidas, ele se enriquece com uma quantidade muito mais elevada de palavras novas. No que diz respeito ao léxico fundamental, ele se mantém no essencial e é utilizado como base do vocabulário da língua.
Isto é compreensível. Não é absolutamente necessário destruir o léxico fundamental se ele pode ser utilizado com êxito durante vários períodos históricos, sem nem mesmo falar do fato de que a destruição do fundo principal do vocabulário, acumulado durante séculos, considerando-se a impossibilidade de criar num curto lapso de tempo um novo fundo principal do vocabulário, conduziria a paralisar a língua a provocar uma desorganização total das relações entre os homens.
O sistema gramatical da língua muda de modo ainda mais lento que o léxico fundamental. Elaborado ao longo das épocas e formando um todo único com a língua, o sistema gramatical muda ainda mais lentamente que o léxico fundamental. Certamente, ele sofre mudanças com o tempo, aperfeiçoa-se, melhora e precisa suas regras, se enriquece com novas regras, mas as bases do sistema gramatical se conservam durante muito tempo, porque, como a história demonstra, elas podem servir com êxito à sociedade durante épocas.
Assim, a estrutura gramatical da língua e seu léxico fundamental constituem a base da língua, a essência de seu caráter específico.
A história revela a grande estabilidade e a resistência imensa da língua à assimilação forcada. Em lugar de explicar esse fenômeno certos historiadores não fazem mais do que se espantar. Mas não há nisso nenhum motivo de espanto. A estabilidade da língua se explica pela estabilidade de seu sistema gramatical e do seu léxico-fundamental. Durante centenas de anos, os assimiladores turcos se esforçaram por mutilar, destruir e aniquilar as línguas dos povos balcânicos. Durante esse período o vocabulário das línguas balcânicas sofreu sérias modificações, adotouuma quantidade não desprezível de palavras e expressões turcas, houve "convergências" e "divergências", mas as línguas balcânicas resistiram sobreviveram. Por que? Porque o sistema gramatical e o léxico fundamental dessas línguas conservaram-se no essencial.
Resulta de tudo isso que a língua, sua estrutura, não podem ser consideradas como o produto de uma determinada época. A estrutura da língua, seu sistema gramatical e o fundo principal do vocabulário são o produto de muitas épocas.
Deve-se compreender que os elementos da língua moderna se formaram na mais remota antiguidade antes da época escravagista. Tratava-se de uma língua pouco complicada, com um vocabulário muito pobre mas com seu próprio sistema gramatical, primitivo é verdade, mas que não deixava de ser por isso um sistema gramatical.
O desenvolvimento posterior da produção, o surgimento das classes, o aparecimento da escrita; o nascimento do Estado, que necessitava para administrar de uma correspondência mais ou menos bem cuidada; o desenvolvimento do comércio, que precisava mais ainda de uma correspondência bem cuidada; o aparecimento da imprensa, o desenvolvimento da literatura, tudo isso trouxe grandes mudanças ao desenvolvimento da língua. Enquanto isso, as tribos e os povos se desmembravam e se dispersavam, confundiam-se e se mesclavam e, mais tarde, se deu o aparecimento das línguas nacionais e dos Estados nacionais, produziram-se convulsões revolucionárias, os velhos regimes sociais foram substituídos por novos. Tudo isso trouxe ainda maiores modificações à língua e ao seu desenvolvimento.
Mas seria um erro grosseiro pensar que o desenvolvimento da língua se deu do mesmo modo que o da super-estrutura: por meio da destruição do que existe e da edificação do novo. Na realidade, o desenvolvimento da língua se deu não por meio da destruição da língua existente e da formação de uma língua nova, mas pelo desenvolvimento e aperfeiçoamento dos principais elementos da língua existente. Deve-se notar que a passagem de uma qualidade da língua a outra não se deu pela explosão, nem pela destruição brutal do velho e a criação do novo, mas por uma acumulação progressiva e prolongada de elementos, de nova qualidade, da estrutura nova da língua, através do desaparecimento gradual dos elementos da velha qualidade.
Diz-se que a teoria do desenvolvimento da língua por fases é uma teoria marxista, porque ela reconhece a necessidade de explosões bruscas como condição da passagem da língua, da velha qualidade à qualidade nova. Isso não é exato, certamente, porque seria difícil encontrar qualquer coisa de marxista nessa teoria. E se a teoria do desenvolvimento por fases reconhece, de fato, explosões bruscas na história do desenvolvimento da língua, pior para ela. O marxismo não reconhece nenhuma explosão brusca na história do desenvolvimento da língua, nenhum desaparecimento da língua existente nem qualquer formação súbita de uma língua nova. Lafargue não tinha razão ao falar "de uma brusca revolução da língua entre 1789 e 1794" na França. ("Ver a brochura de Lafargue: "A língua francesa antes e depois da revolução"). Não houve nessa ocasião nenhuma revolução da língua na França, e menos ainda revolução brutal. Certamente, durante aquele período o vocabulário da língua francesa enriqueceu-se com novas palavras e novas expressões, perdeu certa quantidade de termos envelhecidos, certas palavras mudaram de sentido, e acabou-se. Mas mudanças desse gênero não decidem absolutamente da sorte da língua. O principal numa língua é seu sistema gramatical e seu léxico fundamental. Mas o sistema gramatical e o léxico fundamental da língua francesa, ao contrário, conservaram-se sem modificações notáveis e não somente se conservaram, mas continuam a existir em nossos dias na língua francesa contemporânea.
Não preciso nem mesmo dizer que para liquidar a língua existente e para formar uma nova língua nacional ("revolução brutal na língua!”) um espaço de cinco, seis anos é ridiculamente curto, isso exige séculos.
O marxismo entende que a passagem de uma língua da velha qualidade a uma qualidade nova se produz não pela explosão, não pela destruição da língua existente e a constituição de uma língua nova, mas pela acumulação gradual dos elementos de uma nova qualidade, portanto, pelo desaparecimento gradual dos elementos da velha qualidade.
É preciso dizer, em intenção dos camaradas apreciadores de explosões, que a lei da passagem da velha qualidade à qualidade nova pela explosão, não somente não pode ser aplicada à história do desenvolvimento da língua, mas ainda que não é sempre aplicável aos outros fenômenos sociais, quer se trate das infra-estruturas ou das super-estruturas. Ela é obrigatória para uma sociedade dividida em classes hostis. Mas ela não é absolutamente obrigatória para uma sociedade sem classes hostis. Num período de oito a dez anos, realizamos na agricultura de nosso país, a passagem do regime burguês, do regime de exploração camponesa individual, ao regime socialista kolkhosiano. Foi uma revolução que liquidou o velho regime econômico burguês no campo e que criou um regime novo, socialista. Todavia, essa reviravolta radical não se produziu pela explosão, isto é, pela destruição do poder existente e a criação de um poder novo, mas pela passagem gradual do velho regime burguês no campo ao regime novo. Conseguimos fazê-lo, porque foi uma revolução vinda de cima, porque essa reviravolta radical foi realizada por iniciativa do poder existente com o apoio das massas essenciais do campesinato.
Diz-se que numerosos fatos de cruzamentos de línguas, que se produziram na história, permitem supor que durante esse cruzamento se vê formar uma nova língua por explosão, pela passagem brusca da velha qualidade à qualidade nova. Isto é absolutamente falso.
Não se pode considerar o cruzamento de línguas como ato único de um golpe decisivo cujos resultados se fazem sentir durante alguns anos. O cruzamento de línguas é um longo processo que se realiza durante centenas de anos. Eis porque não se trata aqui de nenhuma explosão.
Prossigamos. Seria completamente falso pensar que o cruzamento de duas línguas, por exemplo, gera uma terceira língua nova que não lembra nenhuma das línguas cruzadas e difere qualitativamente de cada uma delas. Na realidade, quando do cruzamento, uma das línguas ordinariamente obtém a vitória, conserva seu sistema gramatical, conserva seu léxico fundamental e continua a se desenvolver segundo as leis internas de seu desenvolvimento, enquanto a outra língua perde gradualmente suaqualidade e desaparece pouco a pouco.
Por conseguinte, o cruzamento não dá uma terceira língua, uma língua nova, mas conserva uma das línguas, conserva seu sistema gramati cal e seu léxico fundamental, e permite que ela se desenvolva segundo as leis internas de seu desenvolvimento.
É verdade que isso enriquece de certo modo o vocabulário da língua que obteve a vitória às expensas da língua vencida, mas em lugar de enfraquecê-la, isso só faz reforçá-la.
Tal foi por exemplo, o caso da língua russa com a qual se cruzavam, durante odesenvolvimento histórico, as línguas de diversos outros povos, e que sempre obteve a vitória.
Certamente o vocabulário da língua russa enriqueceu-se durante esse tempo às custas do vocabulário das outras línguas, mas isso, longe de enfraquece-la, ao contrário, enriqueceu e reforçou a língua russa.
No referente ao caráter nacional da língua russa, ele não sofreu o menor prejuízo, porque, tendo conservado seu sistema gramatical e seu léxicofundamental, a língua russa continuou a progredir e a aperfeiçoar-se de acordo com as leis internas de seu desenvolvimento.
Não há nenhuma dúvida que a teoria do cruzamento não pode fornecer nada de sério à lingüística soviética. Se é verdade que a lingüística tem por tarefa essencial estudar as leis internas do desenvolvimento da língua, é preciso reconhecer que a teoria do cruzamento, não somente não resolve esse problema, mas nem mesmo o coloca: simplesmente ela não o nota ou não o compreende.
Pergunta: — A "Pravda" teve razão de abrir uma discussão livre sobre as questões de lingüística?
RESPOSTA: — TEVE razão.
Em que sentido as questões de lingüística serão resolvidas? Isso tornar-se-á claro no fim da discussão. Mas podemos dizer, desde já, que a discussão foi de grande, utilidade.
A discussão mostrou, antes de tudo, que nas instituições de lingüística, tanto no centro como nas repúblicas, reinava um regime incompatível com a ciência e os homens de ciência. A menor crítica sobre o estado de coisas na lingüística soviética e mesmo as tentativas mais tímidas de criticar a pretensa "nova doutrina" em lingüística eram objeto de perseguições por parte dos meios dirigentes da lingüística e eram imediatamente sufocadas por eles. Por uma atitude crítica relativamente à herança de N. J. Marr, pela menor desaprovação da doutrina de N. J. Marr, demita-se ou rebaixava-se trabalhadores e pesquisadores de valor no domínio da lingüística. Os lingüistas chegavam à funções responsáveis, não em virtude do seu trabalho, mas de sua aceitação sem reservas da doutrina de N. J. Marr.
É um fato reconhecido por todos que nenhuma ciência pode se desenvolver e prosperar sem luta de opiniões, sem liberdade de crítica. Mas essa regra, geralmente admitida, era ignorada e pisoteada do modo mais arrogante. Criara-se um grupo fechado de dirigentes infalíveis que, depois de se terem protegido de qualquer crítica possível, só agiam por sua cabeça cometiam toda sorte de abusos.
Um exemplo entre outros: as conferências feitas por N. J. Marr em Baku e conhecidas sob o nome de "Curso de Baku", curso que o próprio autor renegara e proibira de reeditar, foram todavia reeditadas por ordem da casta de dirigentes (o camarada Mochtchaninov os chama de“discípulos" de N. J. Marr) e inscritas na lista de manuais recomendados sem reserva aos estudantes. Isso quer dizer que se enganava aos estudantes, fornecendo-lhes um "Curso" desautorizado como manual de valor. Se eu não estivesse convencido da honestidade de Mechtchaninov e das outras personalidades da lingüística, diria que uma tal atitude equivale à sabotagem.
Como pôde acontecer isso? Isso aconteceu por que o regime à moda de Araktcheev, instaurado na lingüística, cultiva o espírito de irresponsabilidade e encoraja tais abusos.
A discussão foi perfeitamente útil, sobretudo porque ela lançou luz sobre esse regime autoritário e o reduziu a pedaços.
Mas a utilidade da discussão não fica nisso. Não somente a discussão espatifou o velho regime em lingüística, mas fez surgir o confusionismo incrível que reina nas questões mais importantes da lingüística nos dirigentes desse ramo da ciência. Antes que a discussão começasse calavam e silenciavam sobre o desassossego que existia na lingüística. Mas quando a discussão começou e quando se tornou impossível calar, eles foram obrigados a exprimir-se nas colunas da imprensa. E então? Evidenciou-se que na doutrina de N. J. Marr há toda uma série de lacunas, de erros, de problemas imprecisos, de teses insuficientemente elaboradas. Pergunta-se por que os "discípulos" de N. J. Marr, só começaram a falar disso após a abertura da discussão? Por que não se preocuparam com isso mais cedo? Por que não falaram nisto aberta e honestamente no momento azado, como é próprio dos homens de ciência?
Depois de ter reconhecido "alguns" erros de N. J. Marr, os "discípulos" de N. J. Marr pensam, parece, que só se pode continuar a desenvolver a lingüística na base da teoria "atualizada" de N. J. Marr, que eles consideram como uma teoria marxista. Eu vos peço por favor, deixemos de lado o "marxismo" do N. J. Marr. N. J. Marr quis realmente tornar-se marxista e procurou sê-lo, mas não o conseguiu. Não foi mais do que um simplificador e um vulgarizador do marxismo no gênero dos membros do "Proletcult" ou do "R. A. P. P.".
N. J. Marr introduziu na lingüística a tese falsa, não marxista, da língua como super-estrutura e embrulhou-se e embrulhou a lingüística. É impossível, na base de uma tese falsa, desenvolver a lingüística soviética.
N. J. Marr introduziu na lingüística uma outra tese, igualmente falsa e não marxista, sobre "o caráter de classe" da língua e embrulhou-se e embrulhou a lingüística. É impossível, na base de uma formulação falsa, em contradição com todo o transcurso da história dos povos e das línguas, desenvolver a lingüística soviética.
N. J. Marr introduziu na lingüística um tom de modéstia, suficiente e arrogante, que não pertence ao marxismo e que levada negar pura e simplesmente e sem reflexão tudo o que havia na lingüística antes de N. J. Marr.
N. J. Marr denigre ruidosamente o método histórico comparativo tratando-o de "idealista". E, contudo, é preciso dizer-se que o método histórico-comparativo, apesar de seus graves defeitos, é assim mesmo melhor que a análise, realmente idealista, dos quatro elementos de N. J. Marr, porque o primeiro leva ao trabalho, ao estudo das línguas, ao passo que o segundo só leva a consultar, pachorrentamente, a bola de cristal dos famosos quatro elementos.
N. J. Marr trata com arrogância toda tentativa de estudar os grupos (as famílias) de línguas e vê nisso a manifestarão da teoria da "língua-mãe”. E, contudo, não se pode negar que não há nenhuma dúvida sobre o parentesco lingüístico de nações tais como os eslavos, por exemplo, e não hádúvida que o estudo do parentesco lingüístico destas nações pode ser de grande proveito para a lingüística no estudo das leis do desenvolvimento da língua. Inútil dizer que a teoria da "língua-mãe" não tem nenhuma relação com isso.
A dar-se ouvidos a N. J. Marr e sobretudo a seus "discípulos", se poderia pensar que não existiu qualquer lingüística antes de N. J. Marr, que a lingüística surgiu com a "nova doutrina" de N. J. Marr. Marx e Engels eram muito mais modestos: julgavam que seu materialismo dialético era o produto do desenvolvimento das ciências, inclusive da filosofia, durante o período precedente.
Assim a discussão teve também o mérito de revelar as falhas ideológicas existente na lingüística soviética.
Penso que quanto mais depressa nossa lingüística se libertar dos erros de J. N. Marr, tanto mais depressa lhe será possível sair da crise que atravessa atualmente.
Liquidar o regime à moda de Araktcheev na lingüística, renunciar aos erros de N. J. Marr, introduzir o marxismo na lingüística: tal é, a meu ver, o caminho pelo qual se pode sanear a lingüística soviética.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
STALIN- sobre problelmas a enfrentar duranrte a consolidação do socialismo em um só país
Para entender como após o XX Congresso do PCUS em 1956 o traidor Kruschov iniciou a criação de condições para o derrubamento da URSS e restauração do capitalismo. Se Stalin houvesse vivido mais 10 anos, isto não teria acontecido. Kruschov teria tido o mesmo destino dos outros traidores nos "expurgos" de 37-38.
- > Biblioteca > Stálin > Novidades
Resposta ao Camarada Ivanov
J. V. Stálin
12 de Fevereiro de 1938
Primeira Edição:....Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 5 - Dezembro de 1947 . Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Julho 2007.Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
Os documentos aqui publicados são de uma poderosa significação para os estudiosos do marxismo-leninismo, para todos os militantes em sua atividade prática. A carta de Stálin é um modelo de clareza e análise em que o grande líder dos povos soviéticos se tornou um mestre, continuador da obra clássica de Marx, Engels e Lénin.
(nota da Redação da Revista Problemas)
Carta de I. Ph. Ivanov, Delegado de Propaganda do Comitê das Juventudes Comunistas do Distrito de Mantarov, Região de Kursk, ao Camarada Stálin
"Querido camarada Stálin:
Peço-lhe encarecidamente que me explique o seguinte problema: há em nossas organizações de base, da mesma forma que no seio do Comitê Regional das Juventudes Comunistas, uma concepção ambígua do triunfo definitivo do socialismo em nosso país; quer dizer que se confunde o primeiro grupo de contradições com o segundo. Em seus trabalhos, no que se refere aos destinos do socialismo na União Soviética, trata-se de dois grupos de contradições: internos e externos.
Quanto ao primeiro grupo de contradições, indubitavelmente já o resolvemos: o socialismo triunfou no interior de nosso país.
Desejaria obter uma resposta sobre o segundo grupo de contradições; isto é, sobre as existentes entre o país do socialismo e os países capitalistas. Você diz que o triunfo definitivo do socialismo significa a solução das contradições externas, supõe uma completa garantia contra a intervenção e, portanto, contra a restauração do capitalismo. E este grupo de contradições não pode ser resolvido senão pelos esforços conjuntos dos operários de todos os países.
E também o camarada Lénin nos ensinou que "não se poderá vencer definitivamente em escala mundial, senão pelos esforços comuns dos operários de todos os países."
Achando-me no Círculo de estudo dos delegados de propaganda do Comitê Regional das Juventudes Comunistas, disse, baseando-me em suas obras, que o triunfo definitivo do socialismo só é possível em escala mundial; mas os militantes do Comitê Regional, Uroshenko, primeiro secretário do Comitê Regional das Juventudes Comunistas, e Kaelkov, instrutor do Serviço de Propaganda, classificaram minha intervenção de saída trotskista.
Li para eles as citações de suas obras sobre este problema, mas Uroshenko me convidou a fechar o volume do compêndio, acrescentando que "o camarada Stálin dizia isso em 1926; hoje estamos em 1938; naquele tempo, não tínhamos a vitória definitiva, enquanto que agora a temos, e hoje já não se pode pensar de maneira alguma na intervenção nem na restauração" disse-me, ainda, "que agora temos a vitória definitiva do socialismo e uma completa garantia contra a intervenção e a restauração do capitalismo"... deste modo fui considerado como cúmplice do trotskismo, rebaixaram-me de minhas funções de propagandista e levantam a questão de minha exclusão das Juventudes Comunistas.
Rogo-lhe, camarada Stálin, que me esclareça este ponto: temos vitória definitiva do socialismo ou não a temos ainda? Talvez eu não esteja a par dos dados complementares recentes sobre este problema em relação com as modificações da situação atual.
Por outro lado, julgo anti-bolchevique a declaração de Uroshenko de que as obras do camarada Stálin, que tratam deste problema, estão algo antiquadas. Têm razão os militantes do Comitê Regional considerando-me como trotskista? Isto é para mim mortificante e ofensivo.
Peço-lhe, camarada Stálin, que tenha a bondade de satisfazer meu pedido, enviando-me uma resposta para o seguinte endereço: Ivan Philipovich Ivanov, Primeiro Soviet rural de Sasemski, distrito de Manturov, região de Kursk. 18 de janeiro de 1938. (ass.) I. Ivanov."
Resposta ao Camarada Ivan Philipovich Ivanov
É indubitável que você tem razão, camarada Ivanov, e que seus adversários ideológicos, isto é, os camaradas Uroshenko e Kaselkov, estão errados.
Eis aqui por que:
É certo que o problema do triunfo do socialismo em um só país, e no nosso, no caso presente, tem dois aspectos distintos.
O Primeiro Aspecto da Questão
O primeiro aspecto do problema do triunfo do socialismo em nosso país compreende o problema das relações de classes no interior de nosso país. Este é o aspecto das relações internas. Pode a classe operaria em nosso país superar as contradições que tem com os nossos camponeses, estabelecer uma aliança e entrar em colaboração com eles. Pode a classe operária de nosso país, em aliança com os nossos camponeses, derrotar a burguesia de nosso país, tirar-lhe a terra, as fábricas, as minas, etc., e edificar com suas próprias forças uma nova sociedade sem classes, uma sociedade socialista completa?
Estes são os problemas que se relacionam com o primeiro aspecto da questão do triunfo do socialismo em nosso país.
O leninismo dá a estes problemas uma resposta afirmativa. Lénin ensina que "temos tudo que é necessário para edificar a sociedade socialista completa," Por conseguinte, podemos e devemos vencer nossa burguesia com nossas próprias forças e edificar a sociedade socialista. Trotsky, Zinoviev, Kamenev e demais senhores, que mais tarde se converteram em espiões e agentes do fascismo, negavam a possibilidade de edificar o socialismo em nosso país sem a vitória prévia da revolução socialista em outros países, nos países capitalistas. O que estes senhores queriam, no fundo, era fazer com que nosso país voltasse atrás, ao caminho do desenvolvimento burguês, encobrindo sua apostasia com mentirosos argumentos sobre a vitória da revolução em outros países. Precisamente a propósito disto estava o nosso Partido em divergência com os referidos senhores. O desenvolvimento posterior do nosso país demonstrou que o Partido tinha razão e que Trotsky e companhia não a tinham. Durante o tempo transcorrido, conseguimos, com efeito, liquidar nossa burguesia, estabelecer com os nossos camponeses uma fraternal colaboração e construir, no fundamental, a sociedade socialista, mesmo sem ter a revolução socialista triunfado ainda nos outros países.
Isto quanto ao primeiro aspecto da questão da vitória do socialismo em nosso país.
Parece-me, camarada Ivanov, que a sua controvérsia com os camaradas Uroshenko e Kaselkov não se refere a este aspecto do problema.
O Segundo Aspecto
O segundo aspecto da questão do triunfo do socialismo em nosso país, compreende o problema das relações entre o nosso país e outro países, os países capitalistas; o problema das relações da classe operária de nosso país com a burguesia de outros países. Este é o aspecto das relações exteriores, internacionais. O socialismo, que venceu em um só país, e que se acha rodeado de numerosos países capitalistas poderosos, pode considerar-se completamente garantido contra o perigo de uma invasão armada, de uma intervenção, e, portanto, contra os intentos de restauração do capitalismo em nosso país? Podem a nossa classe operária e nossos camponeses, só com as suas forças, sem uma ajuda séria da classe operária dos países capitalistas, vencer a burguesia de outros países, da mesma forma que venceram a sua própria burguesia? Dito de outro modo: pode considerar-se o triunfo do socialismo em nosso país como definitivo, isto é, livre da ameaça de uma agressão militar e dos intentos de restauração do capitalismo, tendo em conta que o socialismo não triunfou senão em um só país e que continua existindo o cerco capitalista?
Estes são os problemas relacionados com o segundo aspecto questão do triunfo do socialismo em nosso país.
O leninismo dá a estes problemas uma resposta negativa. O leninismo ensina que "o triunfo definitivo do socialismo, no sentido de uma garantia completa contra a restauração das relações burguesas, só é possível em escala internacional." Veja-se a conhecida resolução, aprovada pela XIV Conferência do Partido Comunista (B) da URSS. Isto significa que a ajuda eficaz do proletariado internacional constitui uma força sem a qual não pode resolver-se o problema do triunfo definitivo do socialismo em um só país. Claro está que isso não significa que devamos permanecer com os braços cruzados à espera de uma ajuda exterior. Pelo contrário: a ajuda do proletariado internacional deve ir unida ao nosso trabalho para fortalecer a defesa de nosso país, para reforçar nosso Exército Vermelho e nossa Marinha Vermelha e mobilizar todo o país para lutar contra a agressão militar e contra os intentos da restauração das relações burguesas.
Veja-se o que diz Lénin a respeito disso:
"Não só vivemos em um Estado, mas sim em um sistema de Estados, e não é crível que a República dos Soviets possa existir durante muito tempo, ao lado dos Estados imperialistas. No fim de contas, terá que vencer uma das duas forças. Enquanto chega o desenlace, são inevitáveis as colisões mais terríveis entre a República Soviética e os Estados burgueses. Quer dizer que, se a classe dominante, o proletariado, quer dominar e o consegue, terá também que demonstrá-lo com sua organização militar." (Lénin, "Obras Completas", tomo XXIV, pág. 122, edição russa).
E mais adiante:
“Estamos rodeados de homens, de classes, de governos, que manifestam abertamente seu ódio contra nós. Não devemos esquecer que sempre nos achamos na iminência de uma invasão." (Lénin, "Obras Completas", tomo XXVII, pág. 117, edição russa).
Isto está dito em termos crus e fortes, mas de modo sincero e verdadeiro, sem retóricas, como Lénin sabia falar.
Sobre a base destas premissas, dizem "As questões do leninismo" de Stálin:
“O triunfo definitivo do socialismo é garantia completa contra os intentos de intervenção e, por conseguinte, de restauração, já que um intento de restauração, por pouco importante que seja, só pode ter lugar com um considerável apoio exterior, com o apoio do capital internacional. Daí se conclui que a defesa de nossa Revolução pelos operários de todos os países e, com maior razão, a vitória destes operários, mesmo que seja só em alguns países, constitui a condição necessária para garantir plenamente o primeiro país vitorioso contra os interesses de intervenção e restauração, a condição necessária do triunfo definitivo do socialismo." ("Questões do Leninismo", pág. 134, edição russa, 1937).
Com efeito, seria ridículo e absurdo fechar os olhos ante a existência do cerco capitalista e pensar que nossos inimigos do exterior — os fascistas, por exemplo — não hão de intentar, quando tenham oportunidade, atacar a URSS à mão armada. Somente podem pensar deste modo fanfarrões cegos ou inimigos embuçados que tratam de adormecer o povo. Não seria menos ridículo negar que, no caso do menor êxito da intervenção militar, os intervencionistas tratariam de abolir o regime soviético e de restabelecer o regime burguês nas regiões que ocupassem. Não restabeleceram Denikin e Koltchak o regime burguês nas regiões ocupadas por eles? Em que são melhores os fascistas que Denikin ou Koltchak? Só espíritos vãos ou inimigos encobertos, desejosos de dissimular sua hostilidade com fanfarronadas e desmobilizar o povo pedem negar o perigo da intervenção militar e dos intentos da restauração, enquanto existir o cerco capitalista. Mas pode-se considerar como definitivo o triunfo do socialismo em um só país, se este se encontra em um cerco capitalista e não está completamente assegurado contra o perigo da intervenção e de restauração? É claro que não. Isto quanto à questão do triunfo do socialismo em um só país.
Dois Problemas Diferentes
De onde se deduz que esta questão contém dois problemas diferentes: a) o problema das relações internas de nosso país, isto é, o problema da vitória sobre nossa burguesia e da edificação do socialismo completo; b) o problema das relações exteriores de nosso país, isto é, o problema que consiste em assegurar completamente nosso país contra os perigos de uma intervenção militar e de uma restauração. Já resolvemos o primeiro problema, visto que nossa burguesia já está liquidada, e o socialismo já está construído no fundamental. Isto se chama entre nós triunfo do socialismo ou, mais exatamente, triunfo da edificação socialista em um só país. Poderíamos dizer que esta vitória é definitiva, se o nosso país se encontrasse em uma ilha e se ao redor dela não houvesse uma multidão de países diversos, de países capitalistas. Mas, como não vivemos em uma ilha, mas sim em um "sistema de Estados", grande parte dos quais mantém uma atitude hostil contra o país do socialismo, criando o perigo de uma intervenção e de uma restauração, dizemos clara e honestamente que o triunfo do socialismo em nosso país não é ainda definitivo... daí se deduz que ainda não está resolvido o segundo problema e que é necessário resolvê-lo. Mais ainda, é impossível resolver o segundo problema com o método que seguimos para resolver o primeiro, isto é, unicamente com os esforços de nosso país. Só se pode resolver o segundo problema unindo grandes esforços do proletariado internacional com esforços ainda maiores de todo o nosso povo soviético. É necessário reforçar e consolidar os laços proletários internacionais entre a classe operária da URSS e a classe operária dos países burgueses; é preciso organizar a ajuda política da classe operária dos países burgueses à classe operária do nosso país para no caso de uma agressão militar contra o nosso país, assim como é preciso organizar de todas as formas a ajuda da classe operária de nosso país à classe operária dos países burgueses; é preciso reforçar e consolidar energicamente nosso Exército Vermelho, nossa Marinha Vermelha, nossa Aviação Vermelha e nossa Osoaviajim — Associação voluntária para a defesa anti-aérea e anti-gás. É preciso manter todo o nosso povo em estado de preparação para a mobilização em face do perigo de uma agressão militar, para que nenhum "acontecimento fortuito”, nenhuma manobra de nossos inimigos externos possa apanhar-nos desprevenidos.
Depreende-se de sua carta que o camarada Uroshenko se inclina para concepções não de todo leninistas. Assegura, segundo parece, que "agora temos o triunfo definitivo do socialismo e a garantia completa contra a intervenção e a restauração do capitalismo." É indubitável que o camarada Uroshenko está completamente equivocado. Esta afirmação do camarada Uroshenko só pode explicar-se pela incompreensão da realidade ambiente e pelo desconhecimento dos princípios elementares do leninismo, ou pela vã jactância de um jovem burocrata presunçoso. Com efeito, "se temos uma completa garantia contra a intervenção e a restauração do capitalismo", para que necessitamos de um poderoso Exército Vermelho, uma Marinha Vermelha, uma poderosa Osoaviajim, para que necessitamos reforçar e consolidar os laços proletários internacionais? Não seria melhor empregar em outros fins os milhares de milhões que gastamos para reforçar o Exército Vermelho e reduzir este ao mínimo, inclusive licenciando-o completamente? Os homens como o camarada Uroshenko, ainda que se achem subjetivamente dedicados à nossa causa, são objetivamente perigosos para ela, desde que, consciente ou inconscientemente — no caso é a mesma coisa — adormecem com suas jactâncias o nosso povo, desmobilizam os operários e os camponeses e ajudam os inimigos a apanhar-nos desprevenidos, no caso de complicações internacionais.
Pelo que se refere, camarada Ivanov, ao fato de que tenha sido "rebaixado de suas funções de propagandista e se tenha levantado a questão de sua exclusão das Juventudes Comunistas", você não tem nada que temer. Se os militantes do Comitê Regional das Juventudes Comunistas pretendem, realmente, imitar o suboficial Prichibelev, pintado por Tchecov, podemos estar seguros de que perderão no jogo. Em nosso país não queremos os Prichibelev.
Agora julgue você se o conhecido parágrafo do livro "As questões do leninismo", relativo ao triunfo do socialismo em um país, envelheceu. Eu mesmo desejaria que assim fosse, que já não existissem no mundo coisas tão desagradáveis como o cerco capitalista, o perigo da agressão militar, o perigo da restauração do capitalismo, etc. Infelizmente, estas coisas desagradáveis continuam existindo.
12 de fevereiro de 1938.
(ass.) J. Stálin
- > Biblioteca > Stálin > Novidades
Resposta ao Camarada Ivanov
J. V. Stálin
12 de Fevereiro de 1938
Primeira Edição:....Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 5 - Dezembro de 1947 . Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Julho 2007.Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
Os documentos aqui publicados são de uma poderosa significação para os estudiosos do marxismo-leninismo, para todos os militantes em sua atividade prática. A carta de Stálin é um modelo de clareza e análise em que o grande líder dos povos soviéticos se tornou um mestre, continuador da obra clássica de Marx, Engels e Lénin.
(nota da Redação da Revista Problemas)
Carta de I. Ph. Ivanov, Delegado de Propaganda do Comitê das Juventudes Comunistas do Distrito de Mantarov, Região de Kursk, ao Camarada Stálin
"Querido camarada Stálin:
Peço-lhe encarecidamente que me explique o seguinte problema: há em nossas organizações de base, da mesma forma que no seio do Comitê Regional das Juventudes Comunistas, uma concepção ambígua do triunfo definitivo do socialismo em nosso país; quer dizer que se confunde o primeiro grupo de contradições com o segundo. Em seus trabalhos, no que se refere aos destinos do socialismo na União Soviética, trata-se de dois grupos de contradições: internos e externos.
Quanto ao primeiro grupo de contradições, indubitavelmente já o resolvemos: o socialismo triunfou no interior de nosso país.
Desejaria obter uma resposta sobre o segundo grupo de contradições; isto é, sobre as existentes entre o país do socialismo e os países capitalistas. Você diz que o triunfo definitivo do socialismo significa a solução das contradições externas, supõe uma completa garantia contra a intervenção e, portanto, contra a restauração do capitalismo. E este grupo de contradições não pode ser resolvido senão pelos esforços conjuntos dos operários de todos os países.
E também o camarada Lénin nos ensinou que "não se poderá vencer definitivamente em escala mundial, senão pelos esforços comuns dos operários de todos os países."
Achando-me no Círculo de estudo dos delegados de propaganda do Comitê Regional das Juventudes Comunistas, disse, baseando-me em suas obras, que o triunfo definitivo do socialismo só é possível em escala mundial; mas os militantes do Comitê Regional, Uroshenko, primeiro secretário do Comitê Regional das Juventudes Comunistas, e Kaelkov, instrutor do Serviço de Propaganda, classificaram minha intervenção de saída trotskista.
Li para eles as citações de suas obras sobre este problema, mas Uroshenko me convidou a fechar o volume do compêndio, acrescentando que "o camarada Stálin dizia isso em 1926; hoje estamos em 1938; naquele tempo, não tínhamos a vitória definitiva, enquanto que agora a temos, e hoje já não se pode pensar de maneira alguma na intervenção nem na restauração" disse-me, ainda, "que agora temos a vitória definitiva do socialismo e uma completa garantia contra a intervenção e a restauração do capitalismo"... deste modo fui considerado como cúmplice do trotskismo, rebaixaram-me de minhas funções de propagandista e levantam a questão de minha exclusão das Juventudes Comunistas.
Rogo-lhe, camarada Stálin, que me esclareça este ponto: temos vitória definitiva do socialismo ou não a temos ainda? Talvez eu não esteja a par dos dados complementares recentes sobre este problema em relação com as modificações da situação atual.
Por outro lado, julgo anti-bolchevique a declaração de Uroshenko de que as obras do camarada Stálin, que tratam deste problema, estão algo antiquadas. Têm razão os militantes do Comitê Regional considerando-me como trotskista? Isto é para mim mortificante e ofensivo.
Peço-lhe, camarada Stálin, que tenha a bondade de satisfazer meu pedido, enviando-me uma resposta para o seguinte endereço: Ivan Philipovich Ivanov, Primeiro Soviet rural de Sasemski, distrito de Manturov, região de Kursk. 18 de janeiro de 1938. (ass.) I. Ivanov."
Resposta ao Camarada Ivan Philipovich Ivanov
É indubitável que você tem razão, camarada Ivanov, e que seus adversários ideológicos, isto é, os camaradas Uroshenko e Kaselkov, estão errados.
Eis aqui por que:
É certo que o problema do triunfo do socialismo em um só país, e no nosso, no caso presente, tem dois aspectos distintos.
O Primeiro Aspecto da Questão
O primeiro aspecto do problema do triunfo do socialismo em nosso país compreende o problema das relações de classes no interior de nosso país. Este é o aspecto das relações internas. Pode a classe operaria em nosso país superar as contradições que tem com os nossos camponeses, estabelecer uma aliança e entrar em colaboração com eles. Pode a classe operária de nosso país, em aliança com os nossos camponeses, derrotar a burguesia de nosso país, tirar-lhe a terra, as fábricas, as minas, etc., e edificar com suas próprias forças uma nova sociedade sem classes, uma sociedade socialista completa?
Estes são os problemas que se relacionam com o primeiro aspecto da questão do triunfo do socialismo em nosso país.
O leninismo dá a estes problemas uma resposta afirmativa. Lénin ensina que "temos tudo que é necessário para edificar a sociedade socialista completa," Por conseguinte, podemos e devemos vencer nossa burguesia com nossas próprias forças e edificar a sociedade socialista. Trotsky, Zinoviev, Kamenev e demais senhores, que mais tarde se converteram em espiões e agentes do fascismo, negavam a possibilidade de edificar o socialismo em nosso país sem a vitória prévia da revolução socialista em outros países, nos países capitalistas. O que estes senhores queriam, no fundo, era fazer com que nosso país voltasse atrás, ao caminho do desenvolvimento burguês, encobrindo sua apostasia com mentirosos argumentos sobre a vitória da revolução em outros países. Precisamente a propósito disto estava o nosso Partido em divergência com os referidos senhores. O desenvolvimento posterior do nosso país demonstrou que o Partido tinha razão e que Trotsky e companhia não a tinham. Durante o tempo transcorrido, conseguimos, com efeito, liquidar nossa burguesia, estabelecer com os nossos camponeses uma fraternal colaboração e construir, no fundamental, a sociedade socialista, mesmo sem ter a revolução socialista triunfado ainda nos outros países.
Isto quanto ao primeiro aspecto da questão da vitória do socialismo em nosso país.
Parece-me, camarada Ivanov, que a sua controvérsia com os camaradas Uroshenko e Kaselkov não se refere a este aspecto do problema.
O Segundo Aspecto
O segundo aspecto da questão do triunfo do socialismo em nosso país, compreende o problema das relações entre o nosso país e outro países, os países capitalistas; o problema das relações da classe operária de nosso país com a burguesia de outros países. Este é o aspecto das relações exteriores, internacionais. O socialismo, que venceu em um só país, e que se acha rodeado de numerosos países capitalistas poderosos, pode considerar-se completamente garantido contra o perigo de uma invasão armada, de uma intervenção, e, portanto, contra os intentos de restauração do capitalismo em nosso país? Podem a nossa classe operária e nossos camponeses, só com as suas forças, sem uma ajuda séria da classe operária dos países capitalistas, vencer a burguesia de outros países, da mesma forma que venceram a sua própria burguesia? Dito de outro modo: pode considerar-se o triunfo do socialismo em nosso país como definitivo, isto é, livre da ameaça de uma agressão militar e dos intentos de restauração do capitalismo, tendo em conta que o socialismo não triunfou senão em um só país e que continua existindo o cerco capitalista?
Estes são os problemas relacionados com o segundo aspecto questão do triunfo do socialismo em nosso país.
O leninismo dá a estes problemas uma resposta negativa. O leninismo ensina que "o triunfo definitivo do socialismo, no sentido de uma garantia completa contra a restauração das relações burguesas, só é possível em escala internacional." Veja-se a conhecida resolução, aprovada pela XIV Conferência do Partido Comunista (B) da URSS. Isto significa que a ajuda eficaz do proletariado internacional constitui uma força sem a qual não pode resolver-se o problema do triunfo definitivo do socialismo em um só país. Claro está que isso não significa que devamos permanecer com os braços cruzados à espera de uma ajuda exterior. Pelo contrário: a ajuda do proletariado internacional deve ir unida ao nosso trabalho para fortalecer a defesa de nosso país, para reforçar nosso Exército Vermelho e nossa Marinha Vermelha e mobilizar todo o país para lutar contra a agressão militar e contra os intentos da restauração das relações burguesas.
Veja-se o que diz Lénin a respeito disso:
"Não só vivemos em um Estado, mas sim em um sistema de Estados, e não é crível que a República dos Soviets possa existir durante muito tempo, ao lado dos Estados imperialistas. No fim de contas, terá que vencer uma das duas forças. Enquanto chega o desenlace, são inevitáveis as colisões mais terríveis entre a República Soviética e os Estados burgueses. Quer dizer que, se a classe dominante, o proletariado, quer dominar e o consegue, terá também que demonstrá-lo com sua organização militar." (Lénin, "Obras Completas", tomo XXIV, pág. 122, edição russa).
E mais adiante:
“Estamos rodeados de homens, de classes, de governos, que manifestam abertamente seu ódio contra nós. Não devemos esquecer que sempre nos achamos na iminência de uma invasão." (Lénin, "Obras Completas", tomo XXVII, pág. 117, edição russa).
Isto está dito em termos crus e fortes, mas de modo sincero e verdadeiro, sem retóricas, como Lénin sabia falar.
Sobre a base destas premissas, dizem "As questões do leninismo" de Stálin:
“O triunfo definitivo do socialismo é garantia completa contra os intentos de intervenção e, por conseguinte, de restauração, já que um intento de restauração, por pouco importante que seja, só pode ter lugar com um considerável apoio exterior, com o apoio do capital internacional. Daí se conclui que a defesa de nossa Revolução pelos operários de todos os países e, com maior razão, a vitória destes operários, mesmo que seja só em alguns países, constitui a condição necessária para garantir plenamente o primeiro país vitorioso contra os interesses de intervenção e restauração, a condição necessária do triunfo definitivo do socialismo." ("Questões do Leninismo", pág. 134, edição russa, 1937).
Com efeito, seria ridículo e absurdo fechar os olhos ante a existência do cerco capitalista e pensar que nossos inimigos do exterior — os fascistas, por exemplo — não hão de intentar, quando tenham oportunidade, atacar a URSS à mão armada. Somente podem pensar deste modo fanfarrões cegos ou inimigos embuçados que tratam de adormecer o povo. Não seria menos ridículo negar que, no caso do menor êxito da intervenção militar, os intervencionistas tratariam de abolir o regime soviético e de restabelecer o regime burguês nas regiões que ocupassem. Não restabeleceram Denikin e Koltchak o regime burguês nas regiões ocupadas por eles? Em que são melhores os fascistas que Denikin ou Koltchak? Só espíritos vãos ou inimigos encobertos, desejosos de dissimular sua hostilidade com fanfarronadas e desmobilizar o povo pedem negar o perigo da intervenção militar e dos intentos da restauração, enquanto existir o cerco capitalista. Mas pode-se considerar como definitivo o triunfo do socialismo em um só país, se este se encontra em um cerco capitalista e não está completamente assegurado contra o perigo da intervenção e de restauração? É claro que não. Isto quanto à questão do triunfo do socialismo em um só país.
Dois Problemas Diferentes
De onde se deduz que esta questão contém dois problemas diferentes: a) o problema das relações internas de nosso país, isto é, o problema da vitória sobre nossa burguesia e da edificação do socialismo completo; b) o problema das relações exteriores de nosso país, isto é, o problema que consiste em assegurar completamente nosso país contra os perigos de uma intervenção militar e de uma restauração. Já resolvemos o primeiro problema, visto que nossa burguesia já está liquidada, e o socialismo já está construído no fundamental. Isto se chama entre nós triunfo do socialismo ou, mais exatamente, triunfo da edificação socialista em um só país. Poderíamos dizer que esta vitória é definitiva, se o nosso país se encontrasse em uma ilha e se ao redor dela não houvesse uma multidão de países diversos, de países capitalistas. Mas, como não vivemos em uma ilha, mas sim em um "sistema de Estados", grande parte dos quais mantém uma atitude hostil contra o país do socialismo, criando o perigo de uma intervenção e de uma restauração, dizemos clara e honestamente que o triunfo do socialismo em nosso país não é ainda definitivo... daí se deduz que ainda não está resolvido o segundo problema e que é necessário resolvê-lo. Mais ainda, é impossível resolver o segundo problema com o método que seguimos para resolver o primeiro, isto é, unicamente com os esforços de nosso país. Só se pode resolver o segundo problema unindo grandes esforços do proletariado internacional com esforços ainda maiores de todo o nosso povo soviético. É necessário reforçar e consolidar os laços proletários internacionais entre a classe operária da URSS e a classe operária dos países burgueses; é preciso organizar a ajuda política da classe operária dos países burgueses à classe operária do nosso país para no caso de uma agressão militar contra o nosso país, assim como é preciso organizar de todas as formas a ajuda da classe operária de nosso país à classe operária dos países burgueses; é preciso reforçar e consolidar energicamente nosso Exército Vermelho, nossa Marinha Vermelha, nossa Aviação Vermelha e nossa Osoaviajim — Associação voluntária para a defesa anti-aérea e anti-gás. É preciso manter todo o nosso povo em estado de preparação para a mobilização em face do perigo de uma agressão militar, para que nenhum "acontecimento fortuito”, nenhuma manobra de nossos inimigos externos possa apanhar-nos desprevenidos.
Depreende-se de sua carta que o camarada Uroshenko se inclina para concepções não de todo leninistas. Assegura, segundo parece, que "agora temos o triunfo definitivo do socialismo e a garantia completa contra a intervenção e a restauração do capitalismo." É indubitável que o camarada Uroshenko está completamente equivocado. Esta afirmação do camarada Uroshenko só pode explicar-se pela incompreensão da realidade ambiente e pelo desconhecimento dos princípios elementares do leninismo, ou pela vã jactância de um jovem burocrata presunçoso. Com efeito, "se temos uma completa garantia contra a intervenção e a restauração do capitalismo", para que necessitamos de um poderoso Exército Vermelho, uma Marinha Vermelha, uma poderosa Osoaviajim, para que necessitamos reforçar e consolidar os laços proletários internacionais? Não seria melhor empregar em outros fins os milhares de milhões que gastamos para reforçar o Exército Vermelho e reduzir este ao mínimo, inclusive licenciando-o completamente? Os homens como o camarada Uroshenko, ainda que se achem subjetivamente dedicados à nossa causa, são objetivamente perigosos para ela, desde que, consciente ou inconscientemente — no caso é a mesma coisa — adormecem com suas jactâncias o nosso povo, desmobilizam os operários e os camponeses e ajudam os inimigos a apanhar-nos desprevenidos, no caso de complicações internacionais.
Pelo que se refere, camarada Ivanov, ao fato de que tenha sido "rebaixado de suas funções de propagandista e se tenha levantado a questão de sua exclusão das Juventudes Comunistas", você não tem nada que temer. Se os militantes do Comitê Regional das Juventudes Comunistas pretendem, realmente, imitar o suboficial Prichibelev, pintado por Tchecov, podemos estar seguros de que perderão no jogo. Em nosso país não queremos os Prichibelev.
Agora julgue você se o conhecido parágrafo do livro "As questões do leninismo", relativo ao triunfo do socialismo em um país, envelheceu. Eu mesmo desejaria que assim fosse, que já não existissem no mundo coisas tão desagradáveis como o cerco capitalista, o perigo da agressão militar, o perigo da restauração do capitalismo, etc. Infelizmente, estas coisas desagradáveis continuam existindo.
12 de fevereiro de 1938.
(ass.) J. Stálin
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
30º Aniversário da Revolução de outubro
Coletânea de artigos para estudos
No 30.º Aniversário da Revolução de Outubro
Pedro Pomar
Novembro de 1947
Primeira Edição: ...... Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 4 - Novembro de 1947. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Agosto 2007.Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
A classe operária e todos os oprimidos do mundo comemoram este ano o 30.° aniversário da grande Revolução de Outubro.
Trinta anos são passados desde aqueles dias heróicos em que o proletariado russo sob a direção do Partido Bolchevique, do grande Partido de Lénin e Stálin, alcançou a vitória sobre o capitalismo e abriupara a humanidade inteira as portas de um novo mundo, o mundo do socialismo, da nova sociedade livre da exploração do homem pelo próprio homem.
Três décadas são passadas, e, apesar de tudo quanto já fizeram de grande, de extraordinário, de altamente humano os povos soviéticos, o que hoje vemos no mundo capitalista é o mesmo ódio, mais sistemático talvez, se bem que mais desesperado também, a mesma raiva impotente de trinta anos passados com que os magnatas do capitalismo receberam a primeira grande e definitiva vitória do proletariado. Acontece com a grande Revolução de Outubro o que se dá também com Marx e o marxismo que, com o correr dos anos, são cada dia mais odiados e perseguidos pelo capitalismo em decadência e desespero.
Marx elaborou a arma teórica, a ciência social do proletariado, ciência universal, assim como internacional, ou mundial. Foi também a grande Revolução de Outubro, que, como diz Stálin,
"assinala uma modificação radical e profunda na história da humanidade, uma modificação radical, e profunda nos destinos históricos do capitalismo, uma modificação radical profunda no movimento de libertação do proletariado mundial, uma modificação radical e profunda nos métodos de luta è nas formas de organização, nos hábitos de vida e nas tradições, na cultura e na ideologia das massas exploradas do mundo inteiro."
Essa modificação radical e profunda é nos dias de hoje mais sensível do que antes, agora, ao comemorarmos o trigésimo aniversário da grande Revolução Socialista, do que em qualquer dos seus aniversários anteriores. É que a guerra contra o nazismo não só revelou aos povos a força nova da sociedade socialista, como também, com a vitória, abriu para toda a humanidade uma nova época de desenvolvimento pacífico, de transição para o socialismo, através das democracias progressivas, por novos caminhos específicos para cada povo. Esta possibilidade de desenvolvimento pacifico para o socialismo é o elemento novo trazido pela vitória dos povos sobre o nazismo, elemento novo que, como sempre acontece, luta ainda pela vida contra o velho que quer sobreviver — o imperialismo que se torna por isso cada dia mais agressivo e desesperado.
"Em conseqüência, diz a declaração dos nove Partidos Comunistas europeus reunidos em Varsóvia, passaram a existir dois campos, o campo imperialista e anti-democrático que visa estabelecer o domínio mundial do imperialismo norte-americano e o destruição da democracia e o campo democrático anti-imperialista, cujo objetivo fundamental é destruir o imperialismo, fortalecer a democracia e eliminar os remanescentes do fascismo."
A divisão do mundo em dois campos bem marcados, separados por um fosso que se aprofunda cada dia, é, sem dúvida, o que há de novo neste instante em que o proletariado, todos os explorados e oprimidos, os homens que amam o progresso e a paz comemoram e festejam o 30.° aniversário da grande Revolução de Outubro.
Essa divisão do mundo em dois campos, o "imperialista e antidemocrático" e o "democrático anti-imperialista" assinala, sem dúvida, o momento que atravessamos, é o fato novo assinalado pelo acontecimento histórico que foi a reunião em Varsóvia, em setembro último, dos dirigentes dos novos mais importantes partidos comunistas do continente europeu. Essa divisão do mundo em dois campos, fato novo já agora bem claro, não surgiu inesperadamente no cenário mundial, mas resultou do natural desenvolvimento dos acontecimentos, em conseqüência da própria vitória sobre a Alemanha e o Japão e já tinha mesmo suas raízes na diferença de objetivos com que se uniram para a guerra contra o nazismo as duas grandes potências capitalistas, Grã Bretanha e Estados Unidos, e o poderoso Estado socialista, a URSS, este, lutando fundamentalmente pela restauração e consolidação da ordem democrática, pela eliminação do fascismo, contra qualquer possibilidade de nova agressão, pelo estabelecimento de uma paz duradoura, enquanto aqueles tinham por objetivo principal de guerra a eliminação do concorrente alemão ou japonês no mercado mundial e a consolidação de sua posição dominante. Guerra de libertação, a guerra contra o nazismo não deixava de ser, no entanto, uma guerra imperialista também para aqueles que sonham com o domínio do mundo, dos mercados e das fontes de matérias primas, e que desejam a exploração de todos os povos.
A derrota militar do nazismo não foi, por isso, acompanhada da total eliminação política e ideológica do fascismo. Pelo contrário, os anos de após-guerra trouxeram a luta cada dia mais acentuada entre os que tudo fazem no sentido de conseguir a eliminação dos remanescentes do fascismo e de sua base material, e aqueles que não poupam esforços para salvá-los, resguardá-los e inclusive, como vem acontecendo cada dia com maior frequência e descaramento, utilizá-los contra o avanço da democracia no mundo inteiro. Foi nesse processo, de um lado a União Soviética e os países democráticos procurando destruir o fascismo, o capital financeiro reacionário e consolidar a democracia e, de outro, os Estados Unidos e a Grã Bretanha, lutando pelo fortalecimento do imperialismo e tentando estrangular a democracia, utilizando para isso todos os meios, inclusive o rebotalho fascista, foi nesse processo que se delimitaram, até chegar à nitidez de hoje, os dois campos em que se divide agora o mundo.
O Avanço Democrático
É certo que a vitória sobre o nazismo trouxe um rápido e poderoso avanço democrático no mundo inteiro. Os povos do oriente europeu conseguiram liquidar as bases econômicas da reação, nacionalizar a grande indústria, dividir a terra, punir os principais traidores a serviço do nazismo, e, assim, criar instituições novas, realmente democráticas e progressistas. Noutros países da Europa surgiram grandes partidos comunistas de massa com centenas de milhares e mesmo milhões de membros, "poderosos representantes de amplos setores da população, profundamente enraizados nos seus próprios países e chefiados por homens capazes", como disse Stálin ao deputado trabalhista inglês Ziliacus na palestra que com ele manteve. Os povos coloniais começaram a obter grandes vitórias na luta pela independência nacional e mesmo na América Latina, apesar do seu imenso atraso econômico e político, as velhas ditaduras, que haviam servido a Hitler e posteriormente se entregaram aos banqueiros ianques, tiveram que ser substituídas por novos governos que pudessem contar com algum apoio popular e capazes de satisfazer, na medida do possível, à formas democráticos e constitucionais. No Brasil, por exemplo, o Sr. Dutra, Ministro da Guerra da ditadura, o Condestável do Estado Novo, como o chamou Vargas, condecorado por Hitler e Hiroito, passou a ser Presidente constitucional de uma República representativa. . . De qualquer maneira, substancial e verdadeiramente, e aparentemente apenas, era a democracia que avançava como conseqüência inevitável da vitória dos povos sobre o fascismo, militarmente batido na Europa, na Ásia, no mundo inteiro. E cresceu em todos os países as forças organizadas do proletariado, que se unem em escala mundial, na gigantesca Federação Mundial dos Sindicatos a que se filiam os representantes de mais de 70 milhões de trabalhadores organizados. E as mulheres democratas unem-se também em grande Federação Mundial para lutar pela paz e pelo completo aniquilamento político e ideológico dos remanescentes perigosos do fascismo. E a juventude une também suas. forças na esperança de impedir novas guerras e consegue através da sua Federação Mundial da Juventude Democrática uma tão impressionante manifestação de força universal de luta pela paz, pelo progresso e a independência de cada povo, qual a recente concentração juvenil de Praga, festa simbólica de alegria, coragem e confiança no futuro em pleno coração da Europa há tão pouco tempo ainda oprimida sob a bota sangrenta da Gestapo.
Com a derrota militar do nazismo avança a democracia pelo mundo inteiro. A União Soviética, apesar do esforço despendido nos duros anos de guerra, dos milhões de vidas perdidas, da destruição sofrida em seu solo, recupera rapidamente sua economia de paz e, mal terminada a guerra, inicia a execução de novo plano qüinqüenal de proporções inéditas. Já nos grandes países capitalistas vitoriosos, especialmente na Grã Bretanha e nos Estados Unidos, muito menos fácil se torna essa volta, da economia de guerra para a de paz, reconversão econômica que os magnatas do imperialismo tratam de fazer a custa do sacrifício das grandes massas trabalhadoras, dos operários das metrópoles imperialistas e dos povos cuja exploração querem aumentar. A situação econômica da Grã Bretanha torna-se cada vez mais'grave e, devido a isso, dia a dia maior a submissão política do orgulhoso imperialismo inglês aos grandes banqueiros de Wall Street.
É certo que a derrota militar do nazismo abalou o imperialismo em seu conjunto e modificou a correlação de forças sociais no mundo inteiro a favor do proletariado, da democracia e do socialismo. Mas do grande embate foi, sem dúvida, o imperialismo ianque aquele que, do lado capitalista, mais reforçado saiu, com nova e mais alta concentração do capital, com uma poderosa indústria em nível técnico o mais elevado e em condições portanto de desafiar qualquer concorrente; na luta pelo predomínio absoluto no mercado mundial. É claro, no entanto, que no regime capitalista essa elevação rápida da produtividade traz em seu seio todos os elementos de nova crise cíclica cada dia mais próxima. À enorme produção norte-americana não corresponde nenhum aumento da capacidade de consumo da população do país, que necessita, assim, buscar mercados no exterior nas condições novas do mundo de após guerra, com a Europa empobrecida pela guerra, com muitos de seus povos lutando energicamente pelo desenvolvimento de suas próprias indústrias, com a China em plena inflação e a braços com a política de traição de Chiang-Kai-Shek e o resto do mundo em condições econômicas não melhores. É evidente, sem dúvida, a crescente agravação da crise geral do capitalismo e daí a agressividade cada vez maior do imperialismo, especialmente do imperialismo ianque que se ergue hoje como o centro da reação mundial, da luta pelo domínio absoluto do mundo — o velho sonho de Hitler, hoje aspiração dos magnatas de Wall Street que sustentam e dirigem a política expansionista e guerreira de Truman e Marshall.
A Atividade Agressiva do Imperialismo
É nesse quadro que se vem desenvolvendo a atividade particularmente agressiva do imperialismo ianque.
"Esta atividade, como afirma a declaração da Conferência de Varsóvia, é desenvolvida simultaneamente em todas as direções — na direção das medidas militares estratégicas, de expansão econômica e de luta ideológica."
É conhecida a atividade guerreira do imperialismo, a distribuição sistemática de suas forças armadas pelos outros países, o intento de subordinar o seu comando e completo controle as forças armadas dos outros países do Continente americano, a ampliação e consolidação de bases militares por todo o mundo, a preocupação em que se entrega à fabricação de armas cada vez mais poderosas e ofensivas e à investigação científica dedicada ao mesmo fim, sem ocultar, ao contrário, pretendendo escandalizar para assustar a atividade de seus técnicos no terreno da energia atômica, bem como da guerra química e bacteriológica.
No terreno da expansão econômica, intimamente relacionada com os esforços continuados pelo predomínio político, é visível, ao lado dos planos para a escravização econômica e política da Europa, o que vem fazendo o imperialismo norte-americano na China, na Indonésia e mais particularmente na América Latina. Só o apoio ostensivo, econômico, político e militar do governo dos Estados Unidos vem retardando a vitória do povo chinês sobre o governo incapaz e traidor de Chiang-Kai-Shek; sem o apoio norte-americano impossível teria sido ao governo holandês voltar a atacar os povos livres da Indonésia. Na América Latina a expansão econômica do imperialismo norte-americano é cada vez mais descarada e vem acompanhada de perto e em escala crescente de intervenção política aberta, como acontece ainda agora no Chile e no Brasil, cujos governos se entregam submissos aos patrões de Washington e Wall Street.
Quanto à luta ideológica, basta acompanhar o que se escreve na imprensa norte-americano quase totalmente a serviço dos provocadores de guerra como tão bem provou de maneira concreta e objetivo, em seu monumental discurso na Assembléia das Nações Unidas, Vishinski, chefe da delegação soviética. A preparação ideológica para a guerra e para a luta terrorista contra os comunistas, odiados pelo imperialismo por serem os vanguardeiros na luta peia paz, pela democracia e a independência de seus povos, é particularmente sensível aqui no Brasil, cuja imprensa, especialmente na Capital da Republica, foi a que, sem dúvida, mais baixo desceu nessa tarefa infame de instrumento do capital reacionário para a preparação ideológica da guerra imperialista.
O discurso de Truman, em 12 de março de 1947, justamente na ocasião em que se reuniam em Moscou os Ministros do Exterior das quatro grandes potências, marca o início da contra-ofensiva imperialista, mais vigorosa e descarada, numa tentativa violenta e algo desesperada de berrar o avanço democrático no mundo inteiro. Todas as tentativas anteriores, desde as manobras na Conferência de Potsdam, as tentativas de ruptura em Londres e depois na Conferência da Paz em Paris nenhum fruto haviam produzido e as forças da democracia continuavam a avançar vitoriosas, conseguindo pouco a pouco consolidar suas posições. A 12 de março, Truman arranca definitivamente a máscara para declarar que o governo norte-americano está disposto a auxiliar com dinheiro e com armas, com técnicos e politicamente também todos aqueles que, especialmente na Europa queiram lutar contra os povos em marcha para o progresso, contra a democracia e o socialismo, entregar-se enfim à "proteção" exploradora e colonizadora do capitalismo norte-americano. Milhões de dólares foram desde logo postos à disposição dos fascistas gregos e dos políticos reacionários da Turquia. E ao tinir do dinheiro imperialista conseguiram as classes dominantes na França e na Itália afastar os comunistas dos postos de governo, ao mesmo tempo que o rebotalho fascista no oriente europeu intensificava sua atividade conspirativa contra os governos populares e progressistas daqueles países. O imperialismo retomava, sem dúvida, a iniciativa e tentava barrar em toda a parte o processo democrático e mesmo fazer retroceder as forças do progresso e da democracia. Na América Latina, são os comunistas desde logo afastados do governo no Chile e do Partido Comunista do Brasil vê cassado o seu registro eleitoral e dificultada a sua atividade legal.
A prática, porém, mostrou a pouca eficiência dos métodos e da linguagem estúpida de Truman. O governo monarco-fascista da Grécia sem apoio popular desmascara-se definitivamente como lacaio do imperialismo submetido aos agentes de Truman e com isso se amplia rapidamente a base popular e nacional dos guerrilheiros gregos que se tornam cada vez mais fortes. Não melhor sucedidos foram os conspiradores a serviço do imperialismo na Hungria, na Yugoslávia, na Romênia ou na Bulgária. O Partido Comunista passou rapidamente de 3.° a 1.° partido na Hungria, graças ao rápido desmascaramento dos traidores húngaros a serviço de Truman, e na Bulgária o ouro e a pressão imperialista só conseguiram agravar a situação do traidor Petkov, enforcado pelo Tribunal de Justiça do povo búlgaro.
O insucesso do Plano Truman, a dificuldade que criava para os "patriotas" e "socialistas" europeus que deviam pô-lo em prática, determinaram sua substituição por algo de menos claro, mais insidioso, capaz enfim de melhor encobrir as verdadeiras intenções do imperialismo e de facilitar aos Bevin, aos Ramadier e De Gasperi, a tarefa infame de entregadores de seus povos à exploração imperialista. Foi para isso que surgiu o chamado Plano Marshall, de escravização econômica e política da Europa pelo imperialismo norte-americano.
Na verdade, sob a direção de Truman e Marshall unem-se todas as forças da reação que com o objetivo firme e certo de fazer barrar o avanço democrático, especialmente na Europa, usam todas as armas e utilizam todos os recursos táticos, desde a chantagem, o suborno, a extorsão, até a pressão econômica e a exploração das contradições internas de cada país e as que por acaso existam entre eles.
A Conferência de Varsóvia
A situação assim criada pela ofensiva imperialista foi particularmente sensível aos povos europeus, mais diretamente visados pela reação mundial e muito especialmente por aqueles povos onde a correlação de forças sociais já é claramente favorável à classe operária que através de seus partidos políticos, como organização de vanguarda, já está no poder ou exerce sobre ele forte influência pelos representantes que possui nas assembléias legislativas. Foram os representantes de tais partidos que se reuniram em Varsóvia para discutir a situação internacional especialmente na Europa, e buscar a melhor maneira de unir seus esforços contra os ataques do imperialismo norte-americano. São os partidos comunistas — sobre os quais já pesa a grande responsabilidade de dirigir e defender os destinos de seus povos, e que sentem, justamente por isso, a necessidade urgente de unificar sua ação política, sua estratégia e sua tática, de coordenar seus esforços a fim de enfrentar com sucesso as manobras da reação. Retomar a iniciativa e passar assim à ofensiva contra o imperialismo e o rebotalho fascista de que o mesmo se utiliza — os que se reúnem pelos seus representantes mais autorizados na Capital polonesa.
Este o verdadeiro significado da histórica Conferência de Varsóvia, que marca, sem dúvida, um novo passo, e dos mais consideráveis, na grande luta dos povos pela paz e a democracia, pelo progresso e independência nacional de cada povo, contra a exploração imperialista e a volta do fascismo.
A Conferência de Varsóvia mostrou aos povos do mundo inteiro o que já são nos dias de hoje as forças da democracia e do progresso.
Reuniram-se na Capital da Polônia os representantes de nove partidos comunistas apenas, mas que representavam mais de 13 milhões de comunistas, imensa vanguarda política que dirige por sua vez a dezenas de milhões de operários organizados, além de outros milhões de homens e mulheres, de jovens e de velhos, que já lutaram contra o nazismo, que conquistaram a independência de suas pátrias e não estão dispostos a se submeter à exploração imperialista, milhões de seres humanos que não se amedrontam com ameaças ou chantagens guerreiras, e que bem marcam a superioridade das forças da democracia sobre as do imperialismo.
A declaração política dada à luz pelos participantes da Conferência de Varsóvia é particularmente importante pela análise que faz da situação mundial como igualmente pela firme disposição que traduz de quebrar as forças do imperialismo.
"Se os partidos comunistas permanecerem firmemente em suas posições — diz-se naquela declaração — se não se deixarem intimidar, se permanecerem corajosamente na defesa da democracia, da soberania nacional, da liberdade e da independência de seus países, se souberem na sua luta contra as tentativas de escravização econômica e política de seus países se colocar à frente de todas as forças que estiverem dispostas a defender a causa da honra e da independência nacional, então nenhum plano de escravização dos países da Europa e da Ásia poderá ser executado."
Com a declaração de Varsóvia toma novo impulso igualmente a luta pelo desmascaramento dos falsos socialistas e trabalhistas, dos traidores da classe operária hoje a serviço do imperialismo ianque, como Léon Blum na França, Atlee e Bevin na Grã Bretanha, Schumacher na Alemanha, Karl Rener e Scherf na Áustria, Saragat na Itália, etc. que, como diz aquele documento:
"se esforçam para ocultar a verdadeira essência predatória da política imperialista sob a máscara de democracia e fraseologia socialista, porém, que de fato continuam a ser, sob todos os aspectos, defensores leais dos imperialistas, provocando a desintegração nas fileiras da classe operária e envenenando o seu futuro."
A Conferência de Varsóvia assinalou enfim a necessidade urgente de estreitar e regularizar os contactos entre os nove partidos comunistas europeus que se haviam reunido, a fim de melhor unificar a luta de seus povos contra o imperialismo, mais facilmente vencer a complexidade da situação e evitar que o inimigo explore possíveis contradições entre povos que lutam há séculos pela independência nacional. Com tais objetivos foi criado um Bureau de Informações com representantes dos nove partidos, tendo por finalidade o intercâmbio de experiências e "em caso de necessidade, a coordenação de atividades dos Partidos Comunistas em bases de livre consentimento". A sede do Bureau de Informações será em Belgrado e por êle será publicado um órgão mensal que se pretende possa ser mais tarde quinzenal.
É fácil de imaginar a importância política do centro de informações, de troca de experiências e de possível coordenação da atividade anti-imperialista das dezenas de milhões de seres humanos que aceitam a direção dos nove partidos comunistas, agora com sede em Belgrado. Este centro será como que o motor capaz de estimular a organização das forças democráticas contra o imperialismo e sua simples criação já constitui séria advertência aos governos monopolistas que acenam com a guerra e procuram por meio de ameaças e chantagens arrastar em suas aventuras os povos fracos e desprevenidos.
Os democratas do mundo inteiro e mais particularmente os trabalhadores e os comunistas de todo o mundo não podem deixar de receber com alegria a notícia da criação do centro de informações em Belgrado. Nele vemos se altear a bandeira gloriosa da luta pelo socialismo, e não hâ dúvida alguma que o órgão a ser publicado pelo Bureau de Informações de Belgrado muito ajudará aos povos do mundo inteiro a compreender a orientação política da vanguarda mais esclarecida do proletariado mundial fortemente armada com a ciência social verdadeira do marxismo-leninismo-stalinismo.
E é por isso também que se deve compreender que a reação imperialista e a imprensa a seu serviço já se lançaram ao ataque contra a Conferência de Varsóvia e mais particularmente contra o recém-criado Bureau de Informações de Belgrado, desde logo apontado como reencarnação da Internacional Comunista.
Para desfazer a provocação já temos hoje a palavra autorizada de Stálin, segundo versão dada a público pelo deputado trabalhista inglês Ziliacus da palestra que sobre o assunto manteve em Sochi, no Mar Negro, com o grande chefe dos povos soviéticos. Diz Ziliacus serem quase textuais as seguintes palavras de Stálin:
"A Internacional Comunista desempenhou papel importante no estabelecimento de ligações entre os trabalhadores de diferentes países, ajudou a desenvolver líderes entre os próprios trabalhadores. Mas hoje, a situação é diversa. Em certo número de países os Partidos Comunistas são poderosos representantes de amplos setores da população, têm grandes responsabilidades, estão profundamente enraizados nos seus próprios países e são chefiados por homens capazes. Seria uma utopia extravagante tentar dirigir partidos de algum centro comum. Como a entendo, a declaração dos nove Partidos Comunistas significa que os comunistas daqueles países trabalham em comum, por um lado para melhorar as condições da classe operária e do povo em geral, e, por outro, para defender a independência e a soberania de suas pátrias".
E completa Stálin o seu pensamento:
"Seria uma estupidez fazer andar para traz a roda da história. . . tentar formar uma Internacional Comunista seria utópico e os comunistas não são utópicos."
Com efeito, são tão diferentes pelos seus objetivos, pelo seu conteúdo, pelas formas de organização que adotam a extinta Internacional Comunista e o recém-formado Bureau de Belgrado que só mesmo como provocação policial seria possível qualquer confusão.
A Internacional Comunista surgiu em 1919 como um dos frutos da Revolução de Outubro e como conseqüência também da bancarrota da II Internacional. Sua tarefa principal consistia em ligar os operários revolucionários dos diversos países, organizando-os em partidos verdadeiramente marxistas-leninistas, capazes de lutar contra o social-chauvinismo dos social-traidores da II Internacional, consistia enfim no auxílio, na promoção e na consolidação, em todos os países em que se tornasse possível, de uma vanguarda dos mais destacados trabalhadores organizados. A III Internacional unia e mobilizava os trabalhadores para a defesa dos seus interesses econômicos e políticos e para a luta contra a reação, o fascismo e a guerra, que este último preparava e para o apoio à União Soviética, como o principal baluarte da causa da Paz e do Anti-fascismo.
0 cunho característico da Internacional Comunista residia no sentido da disciplina voluntariamente aceita e dos fortes laços de coesão que uniam os partidos filiados ao centro que decidia pelo seu Congresso Mundial, instância superior da Internacional Comunista, sabre todas as questões essenciais, de programa e de tática. Por ocasião do II Congresso da I. C. Lenin afirmava:
"O Congresso criou nos PP. CC. de todo o mundo uma coesão e uma disciplina como jamais existiram anteriormente e que permitem à vanguarda da revolução operária continuar marchando para a frente a passos agigantados até seu grande objetivo: a destruição do jugo do capital" vol. IV, pág. 361 - Obras Escolhidas).
Só assim realmente poderia a nova organização operária cumprir a sua formidável tarefa de organizar e educar a vanguarda revolucionária do proletariado, tarefa histórica que foi sem dúvida levada a bom termo e que teve, como lógica conseqüência, a dissolução espontânea da própria organização, quando em 1943, dada a nova situação do mundo, não mais se justificava, sua existência. Cumprida a heróica missão histórica da Internacional de Lenin, estava em 1943, sua forma de organização já superada, como claramente foi dito na época pelo Presidium do Comitê Executivo na resolução que tornou pública:
"Guiados pelo julgamento dos fundadores do marxismo-leninismo, os comunistas jamais apoiaram a conservação de formas de organização que sobreviveram à sua utilidade. Sempre subordinaram as formas de organização do movimento da classe operária em conjunto às peculiaridades da situação histórica concreta e aos problemas que resultam imediatamente desta situação. Os comunistas lembram o exemplo do grande Marx, que se uniu aos mais destacados trabalhadores nas fileiras da Associação Internacional dos Trabalhadores, e, quando a Primeira Internacional cumpriu sua tarefa histórica, de lançar os alicerces para o desenvolvimento de partidos da classe operária em países da Europa e da América, e, em conseqüência da situação de amadurecimento que criava partidos nacionais da classe operária, dissolveu a Primeira Internacional, visto que esta forma de organização já não correspondia aos problemas que tinha à sua frente."
O desenvolvimento histórico, o próprio crescimento dos Partidos Comunistas, a madureza política de seus quadros dirigentes, além da complexidade da situação mundial, tornou prejudicial e inútil, de modo evidente, a existência da Internacional Comunista como centro diretor do movimento mundial da classe operária. Hoje, quatro anos passados daquela dissolução espontânea, pretender voltar à mesma forma de organização, seria querer fazer andar para trás a roda da História, como disse Stálin, seria tarefa utópica e reacionário.
O Bureau de Informações, com sede em Belgrado, tem objetivos diferentes dos da Internacional Comunista. Não possui nem de longe aquelas características coesão e disciplina a que se referia Lenin.
Respondendo recentemente a uma entrevista da "United Press", Luiz Carlos Prestes assim falava sobre o Bureau de Belgrado:
"O Bureau de Informações criado pela Conferência de Varsóvia visa a troca de experiências e a coordenação voluntária de seus esforços, a fim de vencer de maneira mais fácil velhas contradições entre seus povos (dos nove Partidos) e melhor uni-los contra a agressividade do imperialismo, em defesa da paz, da soberania nacional de cada povo, da democracia e do progresso".
E mais adiante:
"A própria organização do Bureau já é um ensinamento, porque só se impedirá a guerra assim — lutando unidos e desmascarando impiedosamente os provocadores de guerra. É claro que as divergências entre estes provocadores de guerra e os povos que querem a paz aumentam cada vez mais — é um antagonismo que se aprofunda e cuja superação, que será o esmagamento dos restos fascistas provocadores de guerra, torna-se assim mais próxima."
A Internacional Comunista foi em seu tempo um centro eminentemente revolucionário, organizador e dirigente da luta do proletariado contra a burguesia que predominava no governo de todos os países, exceto na União Soviética. Hoje, ao contrário, é o Bureau de Informações de Belgrado uma organização de partidos que estão no governo e que se congregam para melhor unificar a ação dos seus povos contra a agressividade do imperialismo americano e de seus lacaios em cada país, que perderam suas velhas posições no aparelho estatal e assistem à destruição pelos seus povos, afinal livres e senhores dos seus destinos, das bases econômicas em que repousam por século sua força.
O Bureau de Belgrado e os PP. CC. da América Latina
Mas se o bureau de Informações de Belgrado está aberto à adesão voluntária dos demais Partidos Comunistas do Mundo, qual a atitude a ser tomada pelos comunistas da América Latina e, mais particularmente, pelo Partido Comunista do Brasil?
Luiz Carlos Prestes, ainda em resposta aos quesitos da "United Press", definia da maneira mais clara e incisiva a nossa posição, em face da pergunta que tratava do convite de Luigi Longo, do Partido Comunista Italiano, para que os PP. CC. aderissem ao Bureau:
"O convite de Longo — diz Prestes — é naturalmente dirigido aos demais Partidos Comunistas europeus, daqueles países, onde a correlação de forças sociais já é igualmente favorável à classe operária. O caso brasileiro, como aliás o dos demais americanos, é completamente diferente."
De fato, a situação dos povos latino-americanos é muito diferente da dos povos europeus. A correlação de forças sociais é ainda brutalmente favorável na América Latina à reação, à burguesia reacionária, aos grandes proprietários de terras, latifundiários, aos financistas agentes do capital estrangeiro, especialmente norte-americano.
Mas o inimigo principal da classe operária e dos povos latinos americanos é o imperialismo ianque, que nos oprime e nos escraviza. Justamente por isso, os comunistas latino-americanos não podem deixar de receber com imensa satisfação a iniciativa da Conferência de Varsóvia e com grandes esperanças a notícia da criação do Bureau de Belgrado, que bem traduzem a ofensiva das forças democráticas contra a agressividade imperialista. O Bureau de Belgrado fará conhecida do mundo inteiro a orientação política da vanguarda mais esclarecida do proletariado mundial e é precisamente nisso que está sua maior importância para os comunistas latino-americanos.
Imaginar organização semelhante dos Partidos Comunistas da América Latina, no momento atual, ou pensar em adesão ao Bureau de Belgrado a nós nos parece prejudicial à luta de libertação nacional de nossos povos contra a exploração imperialista.
Está na ordem do dia para os povos do continente americano a discussão e a solução do estado de empobrecimento e de miséria, da decadência física, do analfabetismo, das doenças, da estúpida exploração dos banqueiros estrangeiros e de seus agentes, os grandes latifundiários e a burguesia reacionário, debater e enfrentar a terrível situação em que se encontra a maioria esmagadora das populações de nosso país. É nossa tarefa histórica, é objetivo comum que a nós comunistas latino-americanos, nos deve ligar e unir também ao proletariado norte-americano, a formação de uma frente comum de todos os patriotas e democratas, independentemente da classe social a que pertençam, contra o opressor imperialista e pela emancipação nacional de nossas pátrias.
Os comunistas latino-americanos têm hoje, como missão indeclinável, colocar-se à frente de seus povos para a luta anti-imperialista e, interpretando o sentimento de progresso, democracia e independência que tão vigorosamente eles têm revelado, reuni-los em conferências ou Congresso, para atuarem mais eficazmente contra o inimigo comum.
As condições para iniciativas de tal natureza só poderão surgir, no entanto, na medida em que, em cada país do Continente, nós, os comunistas, saibamos lutar efetivamente pela paz, pelo bem estar de nossos povos e pela soberania de nossas nações. Aumenta dia a dia no Continente a exploração do capital financeiro colonizador e os acontecimentos dos últimos meses em quase todos os países latino-americanos já revelam suficientemente as intenções sinistras do imperialismo, que emprega todos os recursos, da chantagem da guerra ao suborno, da pressão econômica e política às formas mais sutis de penetração, a fim de dominar completamente nossos povos, saquear nossas riquezas e, finalmente, utilizar nossos filhos como carne para canhão em suas aventuras guerreiras contra os povos livres em marcha para o socialismo e mais particularmente contra os povos da União Soviética.
Seria um crime, diante de tais fatos, ficar de braços cruzados, apáticos e passivos. Como diz, com razão, a declaração dos nove Partidos reunidos em Varsóvia:
"O principal perigo para a classe operária consiste na subestimação de suas próprias torças e na sobrestimação das forças do campo imperialista. . . Os Partidos Comunistas devem encabeçar a resistência, aos planos de expansão imperialista e de opressão sob todos os aspectos, política, econômica e ideológica. Devem se concentrar e unir seus esforços na base de um programa comum democrático e anti-imperialista e reunir em torno deles todas as torças democráticas e patrióticas do povo."
Nessa luta contra o imperialismo é imensa a responsabilidade que pesa sobre os ombros dos comunistas brasileiros. Isto se deve, não somente a importância do Brasil, como maior e mais populoso pais do Continente, como também a sua posição geográfica estratégica, caminho forçado entre os EE. UU., a África e a Europa; se deve ainda às riquezas minerais que possui, inclusive o petróleo, além do ferro, do manganês, dos cristais, etc. É ainda o nosso povo um dos mais explorados do Continente, e foi, sem dúvida, a nossa economia a que mais sofreu desde 1929 com o início da crise geral do capitalismo que, agregada à crise agrária crônica, trouxe o país à difícil situação econômica e financeira em que hoje se debate e que só pode ser resolvida através de reformas profundas da estrutura.
Em face dessas circunstâncias, só a passividade ou o oportunismo, só uma total incompreensão da situação e uma inconcebível incapacidade para se ligar às grandes massas exploradas e oprimidas poderiam explicar, junto com a conhecida falta de organização de massas em que ainda nos encontramos no Brasil, o atual avanço das forças do imperialismo ianque no país e os golpes sucessivos contra as conquistas democráticas mais elementares e a Constituição de 1946.
É nosso dever, no entanto não poupar sacrifícios para deter a marcha da reação no Brasil. Para tanto, torna-se de início indispensável bem compreender a atual situação nacional e mundial e, também, que já estamos em 1947 e não mais em 1945. A presente situação é completamente distinta daquela em que se achava o mundo ao alcançarmos a legalidade para o nosso Partido. Naquela época, a vitória militar sobre o nazismo assegurava um poderoso e rápido avanço das forças da democracia e aqui no Brasil o essencial era garantir o caminho pacífico da reconstitucionalização do país, evitando qualquer pretexto que pudesse servir aos restos fascistas para restaurar a ditadura e afogar a Nação com um banho de sangue, como chegou a ser tentado em 29 de outubro. Hoje a situação é outra, os campos imperialista e anti-imperialista já estão bem marcados e aqui no Brasil só resta aos democratas e patriotas enfrentar com coragem a onda reacionária e imperialista sem medo de que a luta, sejam quais forem suas conseqüências, possa efetivamente servir para qualquer coisa pior do que a ditadura terrorista de Dutra que, a serviço do imperialismo norte-americano, esmaga conquistas democráticas de nosso povo, rasga a Constituição e vende aos banqueiros estrangeiros as riquezas da Nação.
Saibamos evitar com inteligência as provocações, mas tratemos de nos ligar ao povo, às grandes massas trabalhadoras das cidades e dos campos, a fim de impulsioná-los sem receio na luta pelas suas reivindicações mais imediatas, econômicas e políticas, na luta contra a miséria e a fome, contra o terror policial, pelos direitos constitucionais, como também contra os exploradores estrangeiros e os governantes traidores que entregam o Brasil à colonização imperialista.
Na defesa da democracia e da Constituição precisamos mostrar ao povo a necessidade imperiosa de não ceder mais um passo sem luta, sem protesto, sem enfrentar com coragem e de forma cada vez mais vigorosa qualquer atentado da reação. É indispensável desmascarar sistematicamente as manobras do imperialismo e de seus agentes no governo do país. Mostrar, particularmente, o verdadeiro sentido da luta contra o comunismo que é, antes de tudo, uma luta contra o progresso e a democracia. O recente ato de Dutra rompendo relações com a URSS precisa ser pacientemente analisado para que as grandes massas possam compreender o seu verdadeiro sentido. Um governo incapaz de resolver os problemas mais prementes, um governo impopular, que se debate entre as mais profundas contradições da classe dominante e que precisa acabar com a democracia para mais facilmente vender a Pátria aos banqueiros ianques, busca na ruptura de relações com a URSS a maneira de enganar a opinião pública, de exaltar um falso patriotismo que supunha lhe pudesse ajudar a criar um ambiente de desordem que justificasse, além do massacre de comunistas e democratas, a suspensão das garantias constitucionais.
Nessa luta enérgica, persistente, corajosa e sistemática em defesa da democracia e contra o imperialismo, faz-se mister também saber desmascarar os falsos democratas, os capitulacionistas e covardes que aproveitam todos os pretextos e todas as oportunidades para servir aos liberticidas, aos traidores e a ditadura terrorista de Dutra. Suficientemente flexíveis para não nos deixarmos isolar, sabendo marchar com todos os que em qualquer momento defendam a Constituição, devemos no entanto, nós os comunistas, ser implacáveis no desmascaramento dos demagogos, dos "esquerdistas", e "socialistas", de que se servem por tática os agentes do imperialismo, tal e qual fazem na Europa com os chefes da social-democracía.
Nós, os comunistas brasileiros, ao comemorarmos festivamente o 30.° aniversário da grande Revolução de Outubro, podemos sentir-nos orgulhosos do trabalho já realizado na organização e educação do povo. Mas é necessário salientar e devemos compreender que muito maior é a tarefa a realizar a fim de libertarmos nosso povo da exploração imperialista e da opressão cada dia maior da ditadura terrorista de Dutra e seus asseclas e conquistarmos a independência nacional. A Constituição e a democracia não serão defendidas com êxito se ficarmos de braços cruzados. Marchemos ao encontro do povo, liguemo-nos estreitamente as grandes massas trabalhadoras, ajudemo-las a se organizarem, lutemos juntos, favorecendo a mais ampla União Nacional para protestar contra a ditadura, barrar o avanço da reação e impedir a escravização de nossa Pátria pelo imperialismo. Será assim, resistindo, com denodo à reação e ao imperialismo que conseguiremos a solução pacífica para os grandes problemas nacionais e asseguraremos a marcha de nosso povo no caminho da Paz, do progresso e da democracia.
No 30.º Aniversário da Revolução de Outubro
Pedro Pomar
Novembro de 1947
Primeira Edição: ...... Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 4 - Novembro de 1947. Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Agosto 2007.Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
A classe operária e todos os oprimidos do mundo comemoram este ano o 30.° aniversário da grande Revolução de Outubro.
Trinta anos são passados desde aqueles dias heróicos em que o proletariado russo sob a direção do Partido Bolchevique, do grande Partido de Lénin e Stálin, alcançou a vitória sobre o capitalismo e abriupara a humanidade inteira as portas de um novo mundo, o mundo do socialismo, da nova sociedade livre da exploração do homem pelo próprio homem.
Três décadas são passadas, e, apesar de tudo quanto já fizeram de grande, de extraordinário, de altamente humano os povos soviéticos, o que hoje vemos no mundo capitalista é o mesmo ódio, mais sistemático talvez, se bem que mais desesperado também, a mesma raiva impotente de trinta anos passados com que os magnatas do capitalismo receberam a primeira grande e definitiva vitória do proletariado. Acontece com a grande Revolução de Outubro o que se dá também com Marx e o marxismo que, com o correr dos anos, são cada dia mais odiados e perseguidos pelo capitalismo em decadência e desespero.
Marx elaborou a arma teórica, a ciência social do proletariado, ciência universal, assim como internacional, ou mundial. Foi também a grande Revolução de Outubro, que, como diz Stálin,
"assinala uma modificação radical e profunda na história da humanidade, uma modificação radical, e profunda nos destinos históricos do capitalismo, uma modificação radical profunda no movimento de libertação do proletariado mundial, uma modificação radical e profunda nos métodos de luta è nas formas de organização, nos hábitos de vida e nas tradições, na cultura e na ideologia das massas exploradas do mundo inteiro."
Essa modificação radical e profunda é nos dias de hoje mais sensível do que antes, agora, ao comemorarmos o trigésimo aniversário da grande Revolução Socialista, do que em qualquer dos seus aniversários anteriores. É que a guerra contra o nazismo não só revelou aos povos a força nova da sociedade socialista, como também, com a vitória, abriu para toda a humanidade uma nova época de desenvolvimento pacífico, de transição para o socialismo, através das democracias progressivas, por novos caminhos específicos para cada povo. Esta possibilidade de desenvolvimento pacifico para o socialismo é o elemento novo trazido pela vitória dos povos sobre o nazismo, elemento novo que, como sempre acontece, luta ainda pela vida contra o velho que quer sobreviver — o imperialismo que se torna por isso cada dia mais agressivo e desesperado.
"Em conseqüência, diz a declaração dos nove Partidos Comunistas europeus reunidos em Varsóvia, passaram a existir dois campos, o campo imperialista e anti-democrático que visa estabelecer o domínio mundial do imperialismo norte-americano e o destruição da democracia e o campo democrático anti-imperialista, cujo objetivo fundamental é destruir o imperialismo, fortalecer a democracia e eliminar os remanescentes do fascismo."
A divisão do mundo em dois campos bem marcados, separados por um fosso que se aprofunda cada dia, é, sem dúvida, o que há de novo neste instante em que o proletariado, todos os explorados e oprimidos, os homens que amam o progresso e a paz comemoram e festejam o 30.° aniversário da grande Revolução de Outubro.
Essa divisão do mundo em dois campos, o "imperialista e antidemocrático" e o "democrático anti-imperialista" assinala, sem dúvida, o momento que atravessamos, é o fato novo assinalado pelo acontecimento histórico que foi a reunião em Varsóvia, em setembro último, dos dirigentes dos novos mais importantes partidos comunistas do continente europeu. Essa divisão do mundo em dois campos, fato novo já agora bem claro, não surgiu inesperadamente no cenário mundial, mas resultou do natural desenvolvimento dos acontecimentos, em conseqüência da própria vitória sobre a Alemanha e o Japão e já tinha mesmo suas raízes na diferença de objetivos com que se uniram para a guerra contra o nazismo as duas grandes potências capitalistas, Grã Bretanha e Estados Unidos, e o poderoso Estado socialista, a URSS, este, lutando fundamentalmente pela restauração e consolidação da ordem democrática, pela eliminação do fascismo, contra qualquer possibilidade de nova agressão, pelo estabelecimento de uma paz duradoura, enquanto aqueles tinham por objetivo principal de guerra a eliminação do concorrente alemão ou japonês no mercado mundial e a consolidação de sua posição dominante. Guerra de libertação, a guerra contra o nazismo não deixava de ser, no entanto, uma guerra imperialista também para aqueles que sonham com o domínio do mundo, dos mercados e das fontes de matérias primas, e que desejam a exploração de todos os povos.
A derrota militar do nazismo não foi, por isso, acompanhada da total eliminação política e ideológica do fascismo. Pelo contrário, os anos de após-guerra trouxeram a luta cada dia mais acentuada entre os que tudo fazem no sentido de conseguir a eliminação dos remanescentes do fascismo e de sua base material, e aqueles que não poupam esforços para salvá-los, resguardá-los e inclusive, como vem acontecendo cada dia com maior frequência e descaramento, utilizá-los contra o avanço da democracia no mundo inteiro. Foi nesse processo, de um lado a União Soviética e os países democráticos procurando destruir o fascismo, o capital financeiro reacionário e consolidar a democracia e, de outro, os Estados Unidos e a Grã Bretanha, lutando pelo fortalecimento do imperialismo e tentando estrangular a democracia, utilizando para isso todos os meios, inclusive o rebotalho fascista, foi nesse processo que se delimitaram, até chegar à nitidez de hoje, os dois campos em que se divide agora o mundo.
O Avanço Democrático
É certo que a vitória sobre o nazismo trouxe um rápido e poderoso avanço democrático no mundo inteiro. Os povos do oriente europeu conseguiram liquidar as bases econômicas da reação, nacionalizar a grande indústria, dividir a terra, punir os principais traidores a serviço do nazismo, e, assim, criar instituições novas, realmente democráticas e progressistas. Noutros países da Europa surgiram grandes partidos comunistas de massa com centenas de milhares e mesmo milhões de membros, "poderosos representantes de amplos setores da população, profundamente enraizados nos seus próprios países e chefiados por homens capazes", como disse Stálin ao deputado trabalhista inglês Ziliacus na palestra que com ele manteve. Os povos coloniais começaram a obter grandes vitórias na luta pela independência nacional e mesmo na América Latina, apesar do seu imenso atraso econômico e político, as velhas ditaduras, que haviam servido a Hitler e posteriormente se entregaram aos banqueiros ianques, tiveram que ser substituídas por novos governos que pudessem contar com algum apoio popular e capazes de satisfazer, na medida do possível, à formas democráticos e constitucionais. No Brasil, por exemplo, o Sr. Dutra, Ministro da Guerra da ditadura, o Condestável do Estado Novo, como o chamou Vargas, condecorado por Hitler e Hiroito, passou a ser Presidente constitucional de uma República representativa. . . De qualquer maneira, substancial e verdadeiramente, e aparentemente apenas, era a democracia que avançava como conseqüência inevitável da vitória dos povos sobre o fascismo, militarmente batido na Europa, na Ásia, no mundo inteiro. E cresceu em todos os países as forças organizadas do proletariado, que se unem em escala mundial, na gigantesca Federação Mundial dos Sindicatos a que se filiam os representantes de mais de 70 milhões de trabalhadores organizados. E as mulheres democratas unem-se também em grande Federação Mundial para lutar pela paz e pelo completo aniquilamento político e ideológico dos remanescentes perigosos do fascismo. E a juventude une também suas. forças na esperança de impedir novas guerras e consegue através da sua Federação Mundial da Juventude Democrática uma tão impressionante manifestação de força universal de luta pela paz, pelo progresso e a independência de cada povo, qual a recente concentração juvenil de Praga, festa simbólica de alegria, coragem e confiança no futuro em pleno coração da Europa há tão pouco tempo ainda oprimida sob a bota sangrenta da Gestapo.
Com a derrota militar do nazismo avança a democracia pelo mundo inteiro. A União Soviética, apesar do esforço despendido nos duros anos de guerra, dos milhões de vidas perdidas, da destruição sofrida em seu solo, recupera rapidamente sua economia de paz e, mal terminada a guerra, inicia a execução de novo plano qüinqüenal de proporções inéditas. Já nos grandes países capitalistas vitoriosos, especialmente na Grã Bretanha e nos Estados Unidos, muito menos fácil se torna essa volta, da economia de guerra para a de paz, reconversão econômica que os magnatas do imperialismo tratam de fazer a custa do sacrifício das grandes massas trabalhadoras, dos operários das metrópoles imperialistas e dos povos cuja exploração querem aumentar. A situação econômica da Grã Bretanha torna-se cada vez mais'grave e, devido a isso, dia a dia maior a submissão política do orgulhoso imperialismo inglês aos grandes banqueiros de Wall Street.
É certo que a derrota militar do nazismo abalou o imperialismo em seu conjunto e modificou a correlação de forças sociais no mundo inteiro a favor do proletariado, da democracia e do socialismo. Mas do grande embate foi, sem dúvida, o imperialismo ianque aquele que, do lado capitalista, mais reforçado saiu, com nova e mais alta concentração do capital, com uma poderosa indústria em nível técnico o mais elevado e em condições portanto de desafiar qualquer concorrente; na luta pelo predomínio absoluto no mercado mundial. É claro, no entanto, que no regime capitalista essa elevação rápida da produtividade traz em seu seio todos os elementos de nova crise cíclica cada dia mais próxima. À enorme produção norte-americana não corresponde nenhum aumento da capacidade de consumo da população do país, que necessita, assim, buscar mercados no exterior nas condições novas do mundo de após guerra, com a Europa empobrecida pela guerra, com muitos de seus povos lutando energicamente pelo desenvolvimento de suas próprias indústrias, com a China em plena inflação e a braços com a política de traição de Chiang-Kai-Shek e o resto do mundo em condições econômicas não melhores. É evidente, sem dúvida, a crescente agravação da crise geral do capitalismo e daí a agressividade cada vez maior do imperialismo, especialmente do imperialismo ianque que se ergue hoje como o centro da reação mundial, da luta pelo domínio absoluto do mundo — o velho sonho de Hitler, hoje aspiração dos magnatas de Wall Street que sustentam e dirigem a política expansionista e guerreira de Truman e Marshall.
A Atividade Agressiva do Imperialismo
É nesse quadro que se vem desenvolvendo a atividade particularmente agressiva do imperialismo ianque.
"Esta atividade, como afirma a declaração da Conferência de Varsóvia, é desenvolvida simultaneamente em todas as direções — na direção das medidas militares estratégicas, de expansão econômica e de luta ideológica."
É conhecida a atividade guerreira do imperialismo, a distribuição sistemática de suas forças armadas pelos outros países, o intento de subordinar o seu comando e completo controle as forças armadas dos outros países do Continente americano, a ampliação e consolidação de bases militares por todo o mundo, a preocupação em que se entrega à fabricação de armas cada vez mais poderosas e ofensivas e à investigação científica dedicada ao mesmo fim, sem ocultar, ao contrário, pretendendo escandalizar para assustar a atividade de seus técnicos no terreno da energia atômica, bem como da guerra química e bacteriológica.
No terreno da expansão econômica, intimamente relacionada com os esforços continuados pelo predomínio político, é visível, ao lado dos planos para a escravização econômica e política da Europa, o que vem fazendo o imperialismo norte-americano na China, na Indonésia e mais particularmente na América Latina. Só o apoio ostensivo, econômico, político e militar do governo dos Estados Unidos vem retardando a vitória do povo chinês sobre o governo incapaz e traidor de Chiang-Kai-Shek; sem o apoio norte-americano impossível teria sido ao governo holandês voltar a atacar os povos livres da Indonésia. Na América Latina a expansão econômica do imperialismo norte-americano é cada vez mais descarada e vem acompanhada de perto e em escala crescente de intervenção política aberta, como acontece ainda agora no Chile e no Brasil, cujos governos se entregam submissos aos patrões de Washington e Wall Street.
Quanto à luta ideológica, basta acompanhar o que se escreve na imprensa norte-americano quase totalmente a serviço dos provocadores de guerra como tão bem provou de maneira concreta e objetivo, em seu monumental discurso na Assembléia das Nações Unidas, Vishinski, chefe da delegação soviética. A preparação ideológica para a guerra e para a luta terrorista contra os comunistas, odiados pelo imperialismo por serem os vanguardeiros na luta peia paz, pela democracia e a independência de seus povos, é particularmente sensível aqui no Brasil, cuja imprensa, especialmente na Capital da Republica, foi a que, sem dúvida, mais baixo desceu nessa tarefa infame de instrumento do capital reacionário para a preparação ideológica da guerra imperialista.
O discurso de Truman, em 12 de março de 1947, justamente na ocasião em que se reuniam em Moscou os Ministros do Exterior das quatro grandes potências, marca o início da contra-ofensiva imperialista, mais vigorosa e descarada, numa tentativa violenta e algo desesperada de berrar o avanço democrático no mundo inteiro. Todas as tentativas anteriores, desde as manobras na Conferência de Potsdam, as tentativas de ruptura em Londres e depois na Conferência da Paz em Paris nenhum fruto haviam produzido e as forças da democracia continuavam a avançar vitoriosas, conseguindo pouco a pouco consolidar suas posições. A 12 de março, Truman arranca definitivamente a máscara para declarar que o governo norte-americano está disposto a auxiliar com dinheiro e com armas, com técnicos e politicamente também todos aqueles que, especialmente na Europa queiram lutar contra os povos em marcha para o progresso, contra a democracia e o socialismo, entregar-se enfim à "proteção" exploradora e colonizadora do capitalismo norte-americano. Milhões de dólares foram desde logo postos à disposição dos fascistas gregos e dos políticos reacionários da Turquia. E ao tinir do dinheiro imperialista conseguiram as classes dominantes na França e na Itália afastar os comunistas dos postos de governo, ao mesmo tempo que o rebotalho fascista no oriente europeu intensificava sua atividade conspirativa contra os governos populares e progressistas daqueles países. O imperialismo retomava, sem dúvida, a iniciativa e tentava barrar em toda a parte o processo democrático e mesmo fazer retroceder as forças do progresso e da democracia. Na América Latina, são os comunistas desde logo afastados do governo no Chile e do Partido Comunista do Brasil vê cassado o seu registro eleitoral e dificultada a sua atividade legal.
A prática, porém, mostrou a pouca eficiência dos métodos e da linguagem estúpida de Truman. O governo monarco-fascista da Grécia sem apoio popular desmascara-se definitivamente como lacaio do imperialismo submetido aos agentes de Truman e com isso se amplia rapidamente a base popular e nacional dos guerrilheiros gregos que se tornam cada vez mais fortes. Não melhor sucedidos foram os conspiradores a serviço do imperialismo na Hungria, na Yugoslávia, na Romênia ou na Bulgária. O Partido Comunista passou rapidamente de 3.° a 1.° partido na Hungria, graças ao rápido desmascaramento dos traidores húngaros a serviço de Truman, e na Bulgária o ouro e a pressão imperialista só conseguiram agravar a situação do traidor Petkov, enforcado pelo Tribunal de Justiça do povo búlgaro.
O insucesso do Plano Truman, a dificuldade que criava para os "patriotas" e "socialistas" europeus que deviam pô-lo em prática, determinaram sua substituição por algo de menos claro, mais insidioso, capaz enfim de melhor encobrir as verdadeiras intenções do imperialismo e de facilitar aos Bevin, aos Ramadier e De Gasperi, a tarefa infame de entregadores de seus povos à exploração imperialista. Foi para isso que surgiu o chamado Plano Marshall, de escravização econômica e política da Europa pelo imperialismo norte-americano.
Na verdade, sob a direção de Truman e Marshall unem-se todas as forças da reação que com o objetivo firme e certo de fazer barrar o avanço democrático, especialmente na Europa, usam todas as armas e utilizam todos os recursos táticos, desde a chantagem, o suborno, a extorsão, até a pressão econômica e a exploração das contradições internas de cada país e as que por acaso existam entre eles.
A Conferência de Varsóvia
A situação assim criada pela ofensiva imperialista foi particularmente sensível aos povos europeus, mais diretamente visados pela reação mundial e muito especialmente por aqueles povos onde a correlação de forças sociais já é claramente favorável à classe operária que através de seus partidos políticos, como organização de vanguarda, já está no poder ou exerce sobre ele forte influência pelos representantes que possui nas assembléias legislativas. Foram os representantes de tais partidos que se reuniram em Varsóvia para discutir a situação internacional especialmente na Europa, e buscar a melhor maneira de unir seus esforços contra os ataques do imperialismo norte-americano. São os partidos comunistas — sobre os quais já pesa a grande responsabilidade de dirigir e defender os destinos de seus povos, e que sentem, justamente por isso, a necessidade urgente de unificar sua ação política, sua estratégia e sua tática, de coordenar seus esforços a fim de enfrentar com sucesso as manobras da reação. Retomar a iniciativa e passar assim à ofensiva contra o imperialismo e o rebotalho fascista de que o mesmo se utiliza — os que se reúnem pelos seus representantes mais autorizados na Capital polonesa.
Este o verdadeiro significado da histórica Conferência de Varsóvia, que marca, sem dúvida, um novo passo, e dos mais consideráveis, na grande luta dos povos pela paz e a democracia, pelo progresso e independência nacional de cada povo, contra a exploração imperialista e a volta do fascismo.
A Conferência de Varsóvia mostrou aos povos do mundo inteiro o que já são nos dias de hoje as forças da democracia e do progresso.
Reuniram-se na Capital da Polônia os representantes de nove partidos comunistas apenas, mas que representavam mais de 13 milhões de comunistas, imensa vanguarda política que dirige por sua vez a dezenas de milhões de operários organizados, além de outros milhões de homens e mulheres, de jovens e de velhos, que já lutaram contra o nazismo, que conquistaram a independência de suas pátrias e não estão dispostos a se submeter à exploração imperialista, milhões de seres humanos que não se amedrontam com ameaças ou chantagens guerreiras, e que bem marcam a superioridade das forças da democracia sobre as do imperialismo.
A declaração política dada à luz pelos participantes da Conferência de Varsóvia é particularmente importante pela análise que faz da situação mundial como igualmente pela firme disposição que traduz de quebrar as forças do imperialismo.
"Se os partidos comunistas permanecerem firmemente em suas posições — diz-se naquela declaração — se não se deixarem intimidar, se permanecerem corajosamente na defesa da democracia, da soberania nacional, da liberdade e da independência de seus países, se souberem na sua luta contra as tentativas de escravização econômica e política de seus países se colocar à frente de todas as forças que estiverem dispostas a defender a causa da honra e da independência nacional, então nenhum plano de escravização dos países da Europa e da Ásia poderá ser executado."
Com a declaração de Varsóvia toma novo impulso igualmente a luta pelo desmascaramento dos falsos socialistas e trabalhistas, dos traidores da classe operária hoje a serviço do imperialismo ianque, como Léon Blum na França, Atlee e Bevin na Grã Bretanha, Schumacher na Alemanha, Karl Rener e Scherf na Áustria, Saragat na Itália, etc. que, como diz aquele documento:
"se esforçam para ocultar a verdadeira essência predatória da política imperialista sob a máscara de democracia e fraseologia socialista, porém, que de fato continuam a ser, sob todos os aspectos, defensores leais dos imperialistas, provocando a desintegração nas fileiras da classe operária e envenenando o seu futuro."
A Conferência de Varsóvia assinalou enfim a necessidade urgente de estreitar e regularizar os contactos entre os nove partidos comunistas europeus que se haviam reunido, a fim de melhor unificar a luta de seus povos contra o imperialismo, mais facilmente vencer a complexidade da situação e evitar que o inimigo explore possíveis contradições entre povos que lutam há séculos pela independência nacional. Com tais objetivos foi criado um Bureau de Informações com representantes dos nove partidos, tendo por finalidade o intercâmbio de experiências e "em caso de necessidade, a coordenação de atividades dos Partidos Comunistas em bases de livre consentimento". A sede do Bureau de Informações será em Belgrado e por êle será publicado um órgão mensal que se pretende possa ser mais tarde quinzenal.
É fácil de imaginar a importância política do centro de informações, de troca de experiências e de possível coordenação da atividade anti-imperialista das dezenas de milhões de seres humanos que aceitam a direção dos nove partidos comunistas, agora com sede em Belgrado. Este centro será como que o motor capaz de estimular a organização das forças democráticas contra o imperialismo e sua simples criação já constitui séria advertência aos governos monopolistas que acenam com a guerra e procuram por meio de ameaças e chantagens arrastar em suas aventuras os povos fracos e desprevenidos.
Os democratas do mundo inteiro e mais particularmente os trabalhadores e os comunistas de todo o mundo não podem deixar de receber com alegria a notícia da criação do centro de informações em Belgrado. Nele vemos se altear a bandeira gloriosa da luta pelo socialismo, e não hâ dúvida alguma que o órgão a ser publicado pelo Bureau de Informações de Belgrado muito ajudará aos povos do mundo inteiro a compreender a orientação política da vanguarda mais esclarecida do proletariado mundial fortemente armada com a ciência social verdadeira do marxismo-leninismo-stalinismo.
E é por isso também que se deve compreender que a reação imperialista e a imprensa a seu serviço já se lançaram ao ataque contra a Conferência de Varsóvia e mais particularmente contra o recém-criado Bureau de Informações de Belgrado, desde logo apontado como reencarnação da Internacional Comunista.
Para desfazer a provocação já temos hoje a palavra autorizada de Stálin, segundo versão dada a público pelo deputado trabalhista inglês Ziliacus da palestra que sobre o assunto manteve em Sochi, no Mar Negro, com o grande chefe dos povos soviéticos. Diz Ziliacus serem quase textuais as seguintes palavras de Stálin:
"A Internacional Comunista desempenhou papel importante no estabelecimento de ligações entre os trabalhadores de diferentes países, ajudou a desenvolver líderes entre os próprios trabalhadores. Mas hoje, a situação é diversa. Em certo número de países os Partidos Comunistas são poderosos representantes de amplos setores da população, têm grandes responsabilidades, estão profundamente enraizados nos seus próprios países e são chefiados por homens capazes. Seria uma utopia extravagante tentar dirigir partidos de algum centro comum. Como a entendo, a declaração dos nove Partidos Comunistas significa que os comunistas daqueles países trabalham em comum, por um lado para melhorar as condições da classe operária e do povo em geral, e, por outro, para defender a independência e a soberania de suas pátrias".
E completa Stálin o seu pensamento:
"Seria uma estupidez fazer andar para traz a roda da história. . . tentar formar uma Internacional Comunista seria utópico e os comunistas não são utópicos."
Com efeito, são tão diferentes pelos seus objetivos, pelo seu conteúdo, pelas formas de organização que adotam a extinta Internacional Comunista e o recém-formado Bureau de Belgrado que só mesmo como provocação policial seria possível qualquer confusão.
A Internacional Comunista surgiu em 1919 como um dos frutos da Revolução de Outubro e como conseqüência também da bancarrota da II Internacional. Sua tarefa principal consistia em ligar os operários revolucionários dos diversos países, organizando-os em partidos verdadeiramente marxistas-leninistas, capazes de lutar contra o social-chauvinismo dos social-traidores da II Internacional, consistia enfim no auxílio, na promoção e na consolidação, em todos os países em que se tornasse possível, de uma vanguarda dos mais destacados trabalhadores organizados. A III Internacional unia e mobilizava os trabalhadores para a defesa dos seus interesses econômicos e políticos e para a luta contra a reação, o fascismo e a guerra, que este último preparava e para o apoio à União Soviética, como o principal baluarte da causa da Paz e do Anti-fascismo.
0 cunho característico da Internacional Comunista residia no sentido da disciplina voluntariamente aceita e dos fortes laços de coesão que uniam os partidos filiados ao centro que decidia pelo seu Congresso Mundial, instância superior da Internacional Comunista, sabre todas as questões essenciais, de programa e de tática. Por ocasião do II Congresso da I. C. Lenin afirmava:
"O Congresso criou nos PP. CC. de todo o mundo uma coesão e uma disciplina como jamais existiram anteriormente e que permitem à vanguarda da revolução operária continuar marchando para a frente a passos agigantados até seu grande objetivo: a destruição do jugo do capital" vol. IV, pág. 361 - Obras Escolhidas).
Só assim realmente poderia a nova organização operária cumprir a sua formidável tarefa de organizar e educar a vanguarda revolucionária do proletariado, tarefa histórica que foi sem dúvida levada a bom termo e que teve, como lógica conseqüência, a dissolução espontânea da própria organização, quando em 1943, dada a nova situação do mundo, não mais se justificava, sua existência. Cumprida a heróica missão histórica da Internacional de Lenin, estava em 1943, sua forma de organização já superada, como claramente foi dito na época pelo Presidium do Comitê Executivo na resolução que tornou pública:
"Guiados pelo julgamento dos fundadores do marxismo-leninismo, os comunistas jamais apoiaram a conservação de formas de organização que sobreviveram à sua utilidade. Sempre subordinaram as formas de organização do movimento da classe operária em conjunto às peculiaridades da situação histórica concreta e aos problemas que resultam imediatamente desta situação. Os comunistas lembram o exemplo do grande Marx, que se uniu aos mais destacados trabalhadores nas fileiras da Associação Internacional dos Trabalhadores, e, quando a Primeira Internacional cumpriu sua tarefa histórica, de lançar os alicerces para o desenvolvimento de partidos da classe operária em países da Europa e da América, e, em conseqüência da situação de amadurecimento que criava partidos nacionais da classe operária, dissolveu a Primeira Internacional, visto que esta forma de organização já não correspondia aos problemas que tinha à sua frente."
O desenvolvimento histórico, o próprio crescimento dos Partidos Comunistas, a madureza política de seus quadros dirigentes, além da complexidade da situação mundial, tornou prejudicial e inútil, de modo evidente, a existência da Internacional Comunista como centro diretor do movimento mundial da classe operária. Hoje, quatro anos passados daquela dissolução espontânea, pretender voltar à mesma forma de organização, seria querer fazer andar para trás a roda da História, como disse Stálin, seria tarefa utópica e reacionário.
O Bureau de Informações, com sede em Belgrado, tem objetivos diferentes dos da Internacional Comunista. Não possui nem de longe aquelas características coesão e disciplina a que se referia Lenin.
Respondendo recentemente a uma entrevista da "United Press", Luiz Carlos Prestes assim falava sobre o Bureau de Belgrado:
"O Bureau de Informações criado pela Conferência de Varsóvia visa a troca de experiências e a coordenação voluntária de seus esforços, a fim de vencer de maneira mais fácil velhas contradições entre seus povos (dos nove Partidos) e melhor uni-los contra a agressividade do imperialismo, em defesa da paz, da soberania nacional de cada povo, da democracia e do progresso".
E mais adiante:
"A própria organização do Bureau já é um ensinamento, porque só se impedirá a guerra assim — lutando unidos e desmascarando impiedosamente os provocadores de guerra. É claro que as divergências entre estes provocadores de guerra e os povos que querem a paz aumentam cada vez mais — é um antagonismo que se aprofunda e cuja superação, que será o esmagamento dos restos fascistas provocadores de guerra, torna-se assim mais próxima."
A Internacional Comunista foi em seu tempo um centro eminentemente revolucionário, organizador e dirigente da luta do proletariado contra a burguesia que predominava no governo de todos os países, exceto na União Soviética. Hoje, ao contrário, é o Bureau de Informações de Belgrado uma organização de partidos que estão no governo e que se congregam para melhor unificar a ação dos seus povos contra a agressividade do imperialismo americano e de seus lacaios em cada país, que perderam suas velhas posições no aparelho estatal e assistem à destruição pelos seus povos, afinal livres e senhores dos seus destinos, das bases econômicas em que repousam por século sua força.
O Bureau de Belgrado e os PP. CC. da América Latina
Mas se o bureau de Informações de Belgrado está aberto à adesão voluntária dos demais Partidos Comunistas do Mundo, qual a atitude a ser tomada pelos comunistas da América Latina e, mais particularmente, pelo Partido Comunista do Brasil?
Luiz Carlos Prestes, ainda em resposta aos quesitos da "United Press", definia da maneira mais clara e incisiva a nossa posição, em face da pergunta que tratava do convite de Luigi Longo, do Partido Comunista Italiano, para que os PP. CC. aderissem ao Bureau:
"O convite de Longo — diz Prestes — é naturalmente dirigido aos demais Partidos Comunistas europeus, daqueles países, onde a correlação de forças sociais já é igualmente favorável à classe operária. O caso brasileiro, como aliás o dos demais americanos, é completamente diferente."
De fato, a situação dos povos latino-americanos é muito diferente da dos povos europeus. A correlação de forças sociais é ainda brutalmente favorável na América Latina à reação, à burguesia reacionária, aos grandes proprietários de terras, latifundiários, aos financistas agentes do capital estrangeiro, especialmente norte-americano.
Mas o inimigo principal da classe operária e dos povos latinos americanos é o imperialismo ianque, que nos oprime e nos escraviza. Justamente por isso, os comunistas latino-americanos não podem deixar de receber com imensa satisfação a iniciativa da Conferência de Varsóvia e com grandes esperanças a notícia da criação do Bureau de Belgrado, que bem traduzem a ofensiva das forças democráticas contra a agressividade imperialista. O Bureau de Belgrado fará conhecida do mundo inteiro a orientação política da vanguarda mais esclarecida do proletariado mundial e é precisamente nisso que está sua maior importância para os comunistas latino-americanos.
Imaginar organização semelhante dos Partidos Comunistas da América Latina, no momento atual, ou pensar em adesão ao Bureau de Belgrado a nós nos parece prejudicial à luta de libertação nacional de nossos povos contra a exploração imperialista.
Está na ordem do dia para os povos do continente americano a discussão e a solução do estado de empobrecimento e de miséria, da decadência física, do analfabetismo, das doenças, da estúpida exploração dos banqueiros estrangeiros e de seus agentes, os grandes latifundiários e a burguesia reacionário, debater e enfrentar a terrível situação em que se encontra a maioria esmagadora das populações de nosso país. É nossa tarefa histórica, é objetivo comum que a nós comunistas latino-americanos, nos deve ligar e unir também ao proletariado norte-americano, a formação de uma frente comum de todos os patriotas e democratas, independentemente da classe social a que pertençam, contra o opressor imperialista e pela emancipação nacional de nossas pátrias.
Os comunistas latino-americanos têm hoje, como missão indeclinável, colocar-se à frente de seus povos para a luta anti-imperialista e, interpretando o sentimento de progresso, democracia e independência que tão vigorosamente eles têm revelado, reuni-los em conferências ou Congresso, para atuarem mais eficazmente contra o inimigo comum.
As condições para iniciativas de tal natureza só poderão surgir, no entanto, na medida em que, em cada país do Continente, nós, os comunistas, saibamos lutar efetivamente pela paz, pelo bem estar de nossos povos e pela soberania de nossas nações. Aumenta dia a dia no Continente a exploração do capital financeiro colonizador e os acontecimentos dos últimos meses em quase todos os países latino-americanos já revelam suficientemente as intenções sinistras do imperialismo, que emprega todos os recursos, da chantagem da guerra ao suborno, da pressão econômica e política às formas mais sutis de penetração, a fim de dominar completamente nossos povos, saquear nossas riquezas e, finalmente, utilizar nossos filhos como carne para canhão em suas aventuras guerreiras contra os povos livres em marcha para o socialismo e mais particularmente contra os povos da União Soviética.
Seria um crime, diante de tais fatos, ficar de braços cruzados, apáticos e passivos. Como diz, com razão, a declaração dos nove Partidos reunidos em Varsóvia:
"O principal perigo para a classe operária consiste na subestimação de suas próprias torças e na sobrestimação das forças do campo imperialista. . . Os Partidos Comunistas devem encabeçar a resistência, aos planos de expansão imperialista e de opressão sob todos os aspectos, política, econômica e ideológica. Devem se concentrar e unir seus esforços na base de um programa comum democrático e anti-imperialista e reunir em torno deles todas as torças democráticas e patrióticas do povo."
Nessa luta contra o imperialismo é imensa a responsabilidade que pesa sobre os ombros dos comunistas brasileiros. Isto se deve, não somente a importância do Brasil, como maior e mais populoso pais do Continente, como também a sua posição geográfica estratégica, caminho forçado entre os EE. UU., a África e a Europa; se deve ainda às riquezas minerais que possui, inclusive o petróleo, além do ferro, do manganês, dos cristais, etc. É ainda o nosso povo um dos mais explorados do Continente, e foi, sem dúvida, a nossa economia a que mais sofreu desde 1929 com o início da crise geral do capitalismo que, agregada à crise agrária crônica, trouxe o país à difícil situação econômica e financeira em que hoje se debate e que só pode ser resolvida através de reformas profundas da estrutura.
Em face dessas circunstâncias, só a passividade ou o oportunismo, só uma total incompreensão da situação e uma inconcebível incapacidade para se ligar às grandes massas exploradas e oprimidas poderiam explicar, junto com a conhecida falta de organização de massas em que ainda nos encontramos no Brasil, o atual avanço das forças do imperialismo ianque no país e os golpes sucessivos contra as conquistas democráticas mais elementares e a Constituição de 1946.
É nosso dever, no entanto não poupar sacrifícios para deter a marcha da reação no Brasil. Para tanto, torna-se de início indispensável bem compreender a atual situação nacional e mundial e, também, que já estamos em 1947 e não mais em 1945. A presente situação é completamente distinta daquela em que se achava o mundo ao alcançarmos a legalidade para o nosso Partido. Naquela época, a vitória militar sobre o nazismo assegurava um poderoso e rápido avanço das forças da democracia e aqui no Brasil o essencial era garantir o caminho pacífico da reconstitucionalização do país, evitando qualquer pretexto que pudesse servir aos restos fascistas para restaurar a ditadura e afogar a Nação com um banho de sangue, como chegou a ser tentado em 29 de outubro. Hoje a situação é outra, os campos imperialista e anti-imperialista já estão bem marcados e aqui no Brasil só resta aos democratas e patriotas enfrentar com coragem a onda reacionária e imperialista sem medo de que a luta, sejam quais forem suas conseqüências, possa efetivamente servir para qualquer coisa pior do que a ditadura terrorista de Dutra que, a serviço do imperialismo norte-americano, esmaga conquistas democráticas de nosso povo, rasga a Constituição e vende aos banqueiros estrangeiros as riquezas da Nação.
Saibamos evitar com inteligência as provocações, mas tratemos de nos ligar ao povo, às grandes massas trabalhadoras das cidades e dos campos, a fim de impulsioná-los sem receio na luta pelas suas reivindicações mais imediatas, econômicas e políticas, na luta contra a miséria e a fome, contra o terror policial, pelos direitos constitucionais, como também contra os exploradores estrangeiros e os governantes traidores que entregam o Brasil à colonização imperialista.
Na defesa da democracia e da Constituição precisamos mostrar ao povo a necessidade imperiosa de não ceder mais um passo sem luta, sem protesto, sem enfrentar com coragem e de forma cada vez mais vigorosa qualquer atentado da reação. É indispensável desmascarar sistematicamente as manobras do imperialismo e de seus agentes no governo do país. Mostrar, particularmente, o verdadeiro sentido da luta contra o comunismo que é, antes de tudo, uma luta contra o progresso e a democracia. O recente ato de Dutra rompendo relações com a URSS precisa ser pacientemente analisado para que as grandes massas possam compreender o seu verdadeiro sentido. Um governo incapaz de resolver os problemas mais prementes, um governo impopular, que se debate entre as mais profundas contradições da classe dominante e que precisa acabar com a democracia para mais facilmente vender a Pátria aos banqueiros ianques, busca na ruptura de relações com a URSS a maneira de enganar a opinião pública, de exaltar um falso patriotismo que supunha lhe pudesse ajudar a criar um ambiente de desordem que justificasse, além do massacre de comunistas e democratas, a suspensão das garantias constitucionais.
Nessa luta enérgica, persistente, corajosa e sistemática em defesa da democracia e contra o imperialismo, faz-se mister também saber desmascarar os falsos democratas, os capitulacionistas e covardes que aproveitam todos os pretextos e todas as oportunidades para servir aos liberticidas, aos traidores e a ditadura terrorista de Dutra. Suficientemente flexíveis para não nos deixarmos isolar, sabendo marchar com todos os que em qualquer momento defendam a Constituição, devemos no entanto, nós os comunistas, ser implacáveis no desmascaramento dos demagogos, dos "esquerdistas", e "socialistas", de que se servem por tática os agentes do imperialismo, tal e qual fazem na Europa com os chefes da social-democracía.
Nós, os comunistas brasileiros, ao comemorarmos festivamente o 30.° aniversário da grande Revolução de Outubro, podemos sentir-nos orgulhosos do trabalho já realizado na organização e educação do povo. Mas é necessário salientar e devemos compreender que muito maior é a tarefa a realizar a fim de libertarmos nosso povo da exploração imperialista e da opressão cada dia maior da ditadura terrorista de Dutra e seus asseclas e conquistarmos a independência nacional. A Constituição e a democracia não serão defendidas com êxito se ficarmos de braços cruzados. Marchemos ao encontro do povo, liguemo-nos estreitamente as grandes massas trabalhadoras, ajudemo-las a se organizarem, lutemos juntos, favorecendo a mais ampla União Nacional para protestar contra a ditadura, barrar o avanço da reação e impedir a escravização de nossa Pátria pelo imperialismo. Será assim, resistindo, com denodo à reação e ao imperialismo que conseguiremos a solução pacífica para os grandes problemas nacionais e asseguraremos a marcha de nosso povo no caminho da Paz, do progresso e da democracia.
Artigo de Stalin sobre o Partido Comunista
O Partido Comunista — Vanguarda da Classe Operária
J. Stálin
Primeira Edição:....Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 1 - Agosto de 1947 , extraido da obra: "Sobre os fundamentos do Leninismo". Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Abril 2007.Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
O Partido tem que ser, antes de tudo, o destacamento de vanguarda da classe operária. O Partido tem que incorporar em suas fileiras a todos os melhores elementos da classe operária, assimilar sua experiência, seu espírito revolucionário, sua abnegação sem limites pela causa do proletariado. Mas para ser um verdadeiro destacamento de vanguarda, o Partido tem que estar aparelhado com uma teoria revolucionária, com o conhecimento das leis do movimento, com o conhecimento das leis da revolução. Sem isto, não terá forças bastantes para dirigir a luta do proletariado, para conduzi-lo atrás de si. O Partido não pode ser o verdadeiro Partido se se limita a registrar o que vive e o que pensa a massa da classe operária, se marcha a reboque do movimento espontâneo desta, se não sabe vencer a inércia e a indiferença política do movimento espontâneo, se não é capaz de elevar-se acima dos interesses momentâneos do proletariado, se não sabe elevar as massas ao nível dos interesses de classe do proletariado. O Partido tem que marchar à frente da classe operária, tem que ver mais longe que a classe operária, tem que conduzir atrás de si o proletariado e não marchar a reboque da espontaneidade. Os partidos da Segunda Internacional, que pregam o "seguidismo", são os portadores da política burguesa, que condena o proletariado ao papel de um instrumento posto em mãos da burguesia. Só um Partido que se coloque no ponto de vista de destacamento de vanguarda da classe operária e seja capaz de elevar-se até o nível dos interesses de classe do proletariado, só um Partido assim é capaz de afastar a classe operária do caminho do "tradeunionismo" e fazer dela uma força política independente. O Partido é o dirigente político da classe operária.
Falei mais acima das dificuldades da luta da classe operária, da complexidade das condições da luta, da estratégia e da tática, das reservas e das manobras, da ofensiva e da retirada. Estas condições são tão complexas, se não mais, quanto as condições da guerra. Quem pode se orientar nestas condições, quem pode dar uma orientação acertada às massas de milhões de proletários? Nenhum exército em guerra pode prescindir de um Estado Maior perito, se não quiser se ver condenado à derrota. Acaso não é claro que tão pouco o proletariado, e com maior razão, pode prescindir deste Estado maior, se não quiser ficar a mercê de seus inimigos jurados? Mas, qual é seu Estado Maior? Não pode ser outro senão o Partido revolucionário do proletariado. Sem um Partido revolucionário, a classe operária é como um exército sem Estado Maior. O Partido é o Estado Maior de combate do proletariado.
Mas, o Partido não pode ser apenas um destacamento de vanguarda, tem que ser, ao mesmo tempo, um destacamento da classe, uma parte da classe, intimamente ligada a esta com todas as raízes na sua existência. A diferença entre o destacamento de vanguarda e o resto da massa da classe operária, entre os membros do Partido e os sem partido, não pode desaparecer enquanto não desaparecerem as classes, enquanto o proletariado vir suas fileiras serem engrossadas com elementos procedentes de outras classes, enquanto a classe operária em seu conjunto não tiver a possibilidade de elevar-se até o nível do destacamento de vanguarda. Mas o Partido deixaria de ser tal partido se esta diferença se convertesse em uma ruptura, se se encerrasse em si mesmo e se afastasse das massas sem partido. O Partido não pode dirigir a classe se não está ligado às massas sem partido, se não existem laços de união entre o Partido e as massas sem partido, se estas massas não aceitam sua direção, se o Partido não goza de crédito moral e político entre as massas. Há algum tempo ingressaram em nosso Partido duzentos mil novos filiados operários. O que há de notável aqui é o fato de que estes operários, não só vieram por eles mesmos ao Partido, mas que foram mandados a ele por todo o resto da massa sem partido, que tomou parte ativa na admissão dos novos membros e sem cuja aprovação estes não teriam sido admitidos. Este fato demonstra que as grandes massas de operários sem partido vêem em nosso Partido o seu Partido, o Partido mais próximo e mais querido, em cujo engrandecimento e fortalecimento se acham profundamente interessados e a cuja direção confiam de bom grado a sua sorte. Desnecessário demonstrar que sem esses fios imperceptíveis que unem nosso Partido com as massas sem partido, o Partido não poderia converter-se na força decisiva de sua classe. O Partido é uma parte inseparável da classe operária.
"Nós — diz Lenin — somos partido de classe e por isso quase toda a classe (e em tempo de guerra, em épocas de guerra civil, a classe em sua totalidade) tem que atuar sob a direção de nosso Partido, deve ter com o nosso Partido o contacto mais estreito possível; mas seria manilovismo(1*) e "seguidismo" acreditar que quase toda ou toda a classe pode estar algum dia, sob o capitalismo, em condições de elevar-se ao grau de consciência e de atividade de seu destacamento de vanguarda, de seu Partido socialista. Nenhum socialista em juízo perfeito jamais pôs em dúvida que, sob o capitalismo, nem mesmo a organização sindical (mais primitiva e mais acessível ao grau de consciência das camadas menos desenvolvidas) está em condições de abranger toda ou quase toda a classe operária. Esquecer a diferença que existe entre o destacamento de vanguarda e toda a massa que marcha atrás dele, esquecer o dever constante que tem o destacamento de vanguarda de elevar camadas cada vez mais amplas a seu próprio nível avançado, não significa outra coisa senão enganar-se a si próprio, fechar os olhos à imensidade de nossas tarefas e amesquinhá-las". (Lenin, "Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás").
J. Stálin
Primeira Edição:....Fonte: Problemas - Revista Mensal de Cultura Política nº 1 - Agosto de 1947 , extraido da obra: "Sobre os fundamentos do Leninismo". Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo, Abril 2007.Direitos de Reprodução: A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License.
O Partido tem que ser, antes de tudo, o destacamento de vanguarda da classe operária. O Partido tem que incorporar em suas fileiras a todos os melhores elementos da classe operária, assimilar sua experiência, seu espírito revolucionário, sua abnegação sem limites pela causa do proletariado. Mas para ser um verdadeiro destacamento de vanguarda, o Partido tem que estar aparelhado com uma teoria revolucionária, com o conhecimento das leis do movimento, com o conhecimento das leis da revolução. Sem isto, não terá forças bastantes para dirigir a luta do proletariado, para conduzi-lo atrás de si. O Partido não pode ser o verdadeiro Partido se se limita a registrar o que vive e o que pensa a massa da classe operária, se marcha a reboque do movimento espontâneo desta, se não sabe vencer a inércia e a indiferença política do movimento espontâneo, se não é capaz de elevar-se acima dos interesses momentâneos do proletariado, se não sabe elevar as massas ao nível dos interesses de classe do proletariado. O Partido tem que marchar à frente da classe operária, tem que ver mais longe que a classe operária, tem que conduzir atrás de si o proletariado e não marchar a reboque da espontaneidade. Os partidos da Segunda Internacional, que pregam o "seguidismo", são os portadores da política burguesa, que condena o proletariado ao papel de um instrumento posto em mãos da burguesia. Só um Partido que se coloque no ponto de vista de destacamento de vanguarda da classe operária e seja capaz de elevar-se até o nível dos interesses de classe do proletariado, só um Partido assim é capaz de afastar a classe operária do caminho do "tradeunionismo" e fazer dela uma força política independente. O Partido é o dirigente político da classe operária.
Falei mais acima das dificuldades da luta da classe operária, da complexidade das condições da luta, da estratégia e da tática, das reservas e das manobras, da ofensiva e da retirada. Estas condições são tão complexas, se não mais, quanto as condições da guerra. Quem pode se orientar nestas condições, quem pode dar uma orientação acertada às massas de milhões de proletários? Nenhum exército em guerra pode prescindir de um Estado Maior perito, se não quiser se ver condenado à derrota. Acaso não é claro que tão pouco o proletariado, e com maior razão, pode prescindir deste Estado maior, se não quiser ficar a mercê de seus inimigos jurados? Mas, qual é seu Estado Maior? Não pode ser outro senão o Partido revolucionário do proletariado. Sem um Partido revolucionário, a classe operária é como um exército sem Estado Maior. O Partido é o Estado Maior de combate do proletariado.
Mas, o Partido não pode ser apenas um destacamento de vanguarda, tem que ser, ao mesmo tempo, um destacamento da classe, uma parte da classe, intimamente ligada a esta com todas as raízes na sua existência. A diferença entre o destacamento de vanguarda e o resto da massa da classe operária, entre os membros do Partido e os sem partido, não pode desaparecer enquanto não desaparecerem as classes, enquanto o proletariado vir suas fileiras serem engrossadas com elementos procedentes de outras classes, enquanto a classe operária em seu conjunto não tiver a possibilidade de elevar-se até o nível do destacamento de vanguarda. Mas o Partido deixaria de ser tal partido se esta diferença se convertesse em uma ruptura, se se encerrasse em si mesmo e se afastasse das massas sem partido. O Partido não pode dirigir a classe se não está ligado às massas sem partido, se não existem laços de união entre o Partido e as massas sem partido, se estas massas não aceitam sua direção, se o Partido não goza de crédito moral e político entre as massas. Há algum tempo ingressaram em nosso Partido duzentos mil novos filiados operários. O que há de notável aqui é o fato de que estes operários, não só vieram por eles mesmos ao Partido, mas que foram mandados a ele por todo o resto da massa sem partido, que tomou parte ativa na admissão dos novos membros e sem cuja aprovação estes não teriam sido admitidos. Este fato demonstra que as grandes massas de operários sem partido vêem em nosso Partido o seu Partido, o Partido mais próximo e mais querido, em cujo engrandecimento e fortalecimento se acham profundamente interessados e a cuja direção confiam de bom grado a sua sorte. Desnecessário demonstrar que sem esses fios imperceptíveis que unem nosso Partido com as massas sem partido, o Partido não poderia converter-se na força decisiva de sua classe. O Partido é uma parte inseparável da classe operária.
"Nós — diz Lenin — somos partido de classe e por isso quase toda a classe (e em tempo de guerra, em épocas de guerra civil, a classe em sua totalidade) tem que atuar sob a direção de nosso Partido, deve ter com o nosso Partido o contacto mais estreito possível; mas seria manilovismo(1*) e "seguidismo" acreditar que quase toda ou toda a classe pode estar algum dia, sob o capitalismo, em condições de elevar-se ao grau de consciência e de atividade de seu destacamento de vanguarda, de seu Partido socialista. Nenhum socialista em juízo perfeito jamais pôs em dúvida que, sob o capitalismo, nem mesmo a organização sindical (mais primitiva e mais acessível ao grau de consciência das camadas menos desenvolvidas) está em condições de abranger toda ou quase toda a classe operária. Esquecer a diferença que existe entre o destacamento de vanguarda e toda a massa que marcha atrás dele, esquecer o dever constante que tem o destacamento de vanguarda de elevar camadas cada vez mais amplas a seu próprio nível avançado, não significa outra coisa senão enganar-se a si próprio, fechar os olhos à imensidade de nossas tarefas e amesquinhá-las". (Lenin, "Um Passo Adiante, Dois Passos Atrás").
Assinar:
Postagens (Atom)